Cantar a Pele de Lontra


A Mulher-Gato não perde um lançamento da Azougue Editorial.



Escrito por Claudio Daniel às 19h56
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ENQUANTO ISSO, NA BATCAVERNA...


Caros, recebi uma mensagem do mujaheddin Sérgio Cohn, poeta e editor da revista Azougue (que se metamorfoseou numa das editoras mais antenadas da praça, publicando livros de Herberto Helder, Gary Snyder, Michael McClure e outros pesos-pesados). Pois bem, o Sérgio avisa que no dia 28 de março, terça-feira, a partir das 20h, na Mercearia São Pedro, haverá um evento imperdível: o lançamento dos livros Cidade Vertigem, de Afonso Henriques Neto; Domingo é Dia de Ciência, de Bernardo Esteves; e O Sonhador Insone, do próprio Sérgio Cohn, todos publicados pelo selo da Azougue. Evento imperdível. O último a chegar será a mulher do padre! Anotem o endereço da Mercearia São Pedro: rua Rodésia, 34 - Vila Madalena, tel: (11) 3815-7200. Ah, como vocês devem saber, está rolando o ciclo de palestras Os Malditos, na Biblioteca Mário de Andrade, com coordenação do incansável Claudio Willer. O programa, que começou no dia 23 de março, seguirá até 18 de maio, sempre no horário das 19h30. Haverá palestras de Leda Tenório da Mota, Olgária Matos, John Milton, Roberto Piva, Antonio Bivar e outros. Inscrições e informações pelo tel. (11) 3256-5270, ramal 206, ou pelo e-mail kbocchi@prefeitura.sp.gov.br.



Escrito por Claudio Daniel às 19h55
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Vladimir veio à Pele de Lontra para jogar conversa fora.



Escrito por Claudio Daniel às 22h20
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SOBRE UM POEMA

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

(Poema de Herberto Helder)



Escrito por Claudio Daniel às 22h18
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DOIS POEMAS

 

AREIAS

O sol que arde e eriça o Saara

realça longas colchas que desfiam

e rebrotam, no tear Tai Chi dos ventos.

Soprando temporais sobre as sendas

que por mansidão e andaluza dança

religam os grãos: seus poros vitais.

Como a ferida em pele se refaz.

 

(Poema de Israel Azevedo, publicado

no n. 2 do jornal O Casulo.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h34
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aquilo que meus olhos captam

é leão adormecido nos passos

dados à laia de novas equações

para velhas matemáticas

aquilo que meus ouvidos calam

é dor lancinante de fogos esparsos

luzindo em nossas orações

oiros alheios às musas míticas

aquilo que meu olfacto (des) diz

algo que o sol se esqueceu de acariciar

num ténue sussurro a desmaiar

cores que perderam já o lustro do verniz

aquilo que meu paladar morde

num ronco de harmonia contra

diz guerras: voa nos olhos do mundo

in feliz por’indo não saber andar

aquilo que meu tacto não soube deixar

ao longo dos dedos

fluir na poesia:

sentidos implícitos da vida cansados

ausência de um sexto sentido

ao fim e ao cabo.

 

(Poema do angolano Conceição Cristóvão,

do livro Amores elípticos)



Escrito por Claudio Daniel às 08h34
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A Mística aparece para um chá na Pele de Lontra.



Escrito por Claudio Daniel às 22h24
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GINGADO

 

Para o Francisco

 

Tudo é curva,

 

desenho movente

no verde,

em espirais.

 

Pés insinuam

rasantes,

fugas ou fúrias

 

multiplicadas

à dimensão

do imensurável.

 

Ecos de vozes

rebentam

no horizonte:

 

uma esfera

e sua estratégia

de simulações.

 

 

(Poema inédito de Claudio Daniel, 2006)



Escrito por Claudio Daniel às 22h22
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CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS, PARTE UM

 

Caros, vou confessar: sou um pervertido. Sim, é verdade. Tenho essa estranha perversão de colecionar livros. Pior ainda, livros de poesia. E — mais estranho ainda, quase paranóia — de poesia chinesa, japonesa, árabe, africana, indiana e de outras latitudes. Vocês podem pensar que se trata de algum tipo de exotismo, quixotismo, onirismo ou outro ismo qualquer (minha analista não chegou a um diagnóstico preciso sobre meu caso),  mas o fato é tenho fascínio por poéticas ancestrais. Como a doença é contagiosa e entre os leitores deste blog já existem muitos loucos com a mesma anomalia, citarei abaixo alguns dos livros que vêm alimentando a minha bizarra patologia. Well, anotem em seus caderninhos e façam bom proveito! Quem quiser conhecer poesia coreana pode ler três bons livros organizados e traduzidos pela amiga Yun Jung Im: Sijô, Poesiacanto coreana clássica (em parceria com Alberto Marsicano), Iluminuras, 1994, com prefácio de Haroldo de Campos; O pássaro que comeu o sol (Poesia moderna da Coréia), editora Arte Pau-Brasil, coleção Ptyx, 1993; e Olho-de-corvo e outras obras de Yi Sáng, ed. Perspectiva, coleção Signos, 1999. Já para os apaixonados por poesia africana recomendo Oriki Orixá, de Antonio Risério, ed. Perspectiva, coleção Signos, 1996, e Ondula, savana branca, de Ruy Duarte de Carvalho, que saiu pela Sá da Costa Editora, Lisboa, 1982.

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Claudio Daniel às 10h12
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CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS, PARTE DOIS

A poesia árabe é quase desconhecida no Brasil; a única obra a respeito que eu conheço é A Poesia Árabe-Andaluza: Ibn Quzmán de Córdova, de Michel Sleiman, ed. Perspectiva, coleção Signos, 2000. A poesia chinesa é mais conhecida por aqui, graças a Cecília Meireles, autora de Poemas Chineses (Li Po e Tu Fu), título relançado pela Nova Fronteira, em 1996, e Haroldo de Campos, que publicou Escrito sobre jade, Tipografia do Fundo de Ouro Preto, 1996. Saiu, há uns vinte anos, uma tradução integral do Livro das Odes coletadas por Confúcio, obra de um jesuíta português, Joaquim Guerra, mas o título está fora de catálogo há muito tempo. A poesia japonesa tem inúmeras traduções em português, mas nem todas de boa qualidade; recomendo Hagoromo de Zeami, peça de teatro nô traduzida por Haroldo de Campos, editora Estação Liberdade, 1993, e Bashô, a lágrima do peixe, biografia (com traduções) do poeta-samurai por Paulo Leminski, Brasiliense, 1983. Outra versão mais facilmente localizável em livrarias é Trilha estreita ao confim (coletânea de quatro diários de viagem de Bashô), com tradução de Alberto Marsicano, Iluminuras, 1997.

 

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Claudio Daniel às 10h11
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CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS, PARTE TRÊS

A poesia indiana é quase totalmente desconhecida entre nós; além de uma versão de Basavana feita por Leminski, e publicada no saudoso Folhetim dos anos 80, há versões desse poeta e de Madeviaca feitas por Décio Pignatari e incluídas no livro  31 Poetas, 214 Poemas, Companhia das Letras, 1996. Da literatura clássica da Índia, uma boa tradução poética para o português (talvez a única, ao menos no Brasil) é Bhagavad Gita, Canção do Divino Mestre, Companhia das letras, 1998, com tradução de Rogério Duarte. De poesia indígena, sei que Josely Vianna Baptista publicou os Cadernos de Ameríndia, mas não conheço essa publicação. Ufa!!! Saiu muita coisa também na revista Coyote — como o poeta sírio Adonis, o chinês Po  Chu I, o coreano Yi Sáng, entre outros. Duas obras essenciais para a compreensão da poesia japonesa (e da poesia em geral): A Arte no Horizonte do Provável e A Operação do Texto, de Haroldo de Campos, publicadas pela Perspectiva. Quem souber inglês pode ler também as antologias e ensaios de Jerome Rothenberg, poeta americano que é o papa da chamada etnopoesia (que prefiro chamar de poesia universal). Quem tiver outras dicas de livros legais que informe a Pele de Lontra!



Escrito por Claudio Daniel às 10h11
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