Cantar a Pele de Lontra


Poema visual de E. M. de Mello e Castro.

 

O Casulo

Caros, no dia 14 de março, terça-feira, a partir das 19h, será lançado o segundo número de O Casulo — Jornal de Literatura Contemporânea, na Casa das Rosas (óbvio, onde mais seria?). O evento também será dedicado ao lançamento oficial do Projeto Identidade, grupo de escritores jovens com núcleos por todo o Brasil (confiram o site www.ProjetoIdentidade.org). Será possível que você ainda não sabe de cor o endereço da Casa das Rosas, cazzo? Então, anota aí: Avenida Paulista, 37, pertinho da estação Brigadeiro do metrô.



Escrito por Claudio Daniel às 21h21
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Poema visual de quem? A. H., oras bolas,

de quem mais seria?

 

Últimas notícias: o inestimável amigo Leonardo Gandolfi informa que foi publicado um livro de Ana Hatherly no Brasil, A Idade da Escrita, pela editora Escrituras. A poeta foi incluída também na Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, da editora Lacerda (RJ, 1999). Relendo o n. 5 da revista Sibila (2003), encontrei mais três peças da autora, de seu livro Poemas femininos. O que mais? Escrevi uma resenha do livro A chave no repouso da porta, de Abreu Paxe, que foi publicada no site da União dos Escritores Angolanos (UEA), www.uea-angola.org. Esta página traz várias matérias interessantes sobre a literatura do país africano, além de pequenas antologias poéticas e entrevistas. Por fim, soube que o poeta cubano Ricardo Alberto Perez (autor de Habana Medieval) está organizando um dossiê sobre minha “vida e obra” en La Isla caribeña. Se a coisa continuar assim, vou acabar ficando metido a besta.



Escrito por Claudio Daniel às 08h47
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Outro poema visual de A. H.



Escrito por Claudio Daniel às 22h43
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MAIS ANA

 
OS CARACÓIS E AS CARPAS TÊM CORNOS

os caracóis e as carpas têm cornos

vês, eu não te dizia?

as carpas e os caracóis não têm cornos

vês, eu não te dizia?

as caracoias e os carpos têm cornos

vês, eu não te dizia?

os carapoicos e os parcos não têm cornos

vês, eu não te dizia?

as carapaias e os porcos têm cornos

vês, eu não te dizia?

os caracoicos e as parras não têm cornos

vês, eu não te dizia?

as carassaias e os parcas têm cornos

vês, eu não te dizia?

os caracorpos e as praias não têm cornos

vês, eu não te dizia?

as caracaias e os poicos têm

vês

 

 

 

O ANTIGO MAR VERMELHO

 

Quando tu vens ao meu encontro

sorrindo

 

Rosa precipitada

antigo mar vermelho

meu coração

abre-se

 

 

(Poemas de Ana Hatherly)



Escrito por Claudio Daniel às 22h42
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TRÊS VEZES ANA HATHERLY

 

Poema visual de A. H.

 

 

 

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

 

 

* * *

 

Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.



Escrito por Claudio Daniel às 21h21
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Ana Hatherly é uma das vozes principais da vanguarda portuguesa, tendo se dedicado também à poesia visual.



Escrito por Claudio Daniel às 12h21
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TRÊS POEMAS DE ANA HATHERLY

  

GOSTAS DA PALAVRA LILOTE?

 

gostas da palavra litote?

é um tropo.

e não gostas da palavra tropolitote?

então diz comigo:

tropolitóóóóóóóte !

litote

tropope

tropolipope

tripopopote

tripolitripolitote

tripolitripolipoli

toliloli

tropopopoli

tripopeli

popoli

poplili

popli

popliiii,

 

 

OS SUMÉRIOS ERAM SUMÁRIOS

 

os sumérios eram sumários

e por isso foram sumírios

daí vem que foram semírios

mírios de se ou de si

 

os sumírios eram sumários sendo sumérios

e daí vem que foram sumiros

sumaros e sumêros

  

os sumários eram suma dos

é daí que vem o sumo

a soma e a suma-a-uma

 

os sumórios eram sumêdos

porque eram semudos

e mudos de se ou de si

eram sumúrios

 

os sumúrios eram semílicos

simólicos e simulados

daí vem que amaram a sêmula

a súmula

e o tacão alto

 

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Claudio Daniel às 00h18
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O ECO DE MIL SINOS DE PRATA

 

O eco de mil sinos de prata

emudece

ante o labor da aranha

 

O tempo emudece

na cegueira do ar

na sua geografia nula

 

Que queres de mim

matéria insensível?

 

Nas coisas conhecidas

o verbo ser

emudece



Escrito por Claudio Daniel às 00h17
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TRÊS POEMAS DE JOÃO MAIMONA

 

 

 Tela do pintor angolano Costa.

 

 

 

LIBERTAÇÃO

 

sentidos. palpitações. prisão interna.

a sagração de incisões. centena

e meia dúzia de palpações libertam

profetas com tatuagens de gatas.

circulava na mucosa vaginal

um colar de murmúrios fluido.

 

 

ESPELHO DA CICATRIZ

 

secular diálogo com uma cicatriz.

trama de lágrimas na ausência

de canções e letras constantes.

contínuas: de dia, numa singela

pilhagem de rumores, cintilam à volta

da cicatriz. a miserável acalmia

constante. de noite, doces cacimbos

enxugam o espelho da cicatriz. submissa

desfilava a trama de lágrimas.

 

(CONTINUA EMBAIXO) 



Escrito por Claudio Daniel às 10h53
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PALMEIRAS INCLINADAS

 

vinham pássaros seduzir as grafias

das linhas do corpo, minúsculas e sépticas.

estavam à escala da dimensão que

voltava com acentos louvando a

superfície da lágrima com tintas

de fragmentos d’alegria. de súbito

os pássaros escrevem o fado do céu

na torre da noite. e as ovelhas

recém-nascidas se reconheciam

no anoitecer da estrada

harmonizando palmeiras inclinadas.

 

 

(Do livro Lugar e origem da beleza, de João Maimona.

Ed. Kilombelombe, Luanda, 2003.)

 

 

Últimas Notícias: Caros, recebi uma ótima surpresa neste final de semana: um pacote com quatro livros do poeta angolano João Maimona, que estou lendo com muito interesse. Ele é um dos principais renovadores da linguagem poética no país africano.  Voltarei ao assunto em breve, aguardem. Outra boa notícia é que acaba de sair uma nova edição da revista argentina Tsé Tsé, editada pelo mujaheddin Reynaldo Jiménez. Saiu uma entrevista/dossiê com este insuportável ser que vos fala, incluindo poemas do Figuras Metálicas traduzidos por Maria Rosa Maldonado. Quem quiser adquirir a publicação pode escrever para tsetse@sinectis.com.ar. Ciaozim,

 

CD



Escrito por Claudio Daniel às 10h53
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DO ENCARNIÇADO (FRAGMENTO)

  

BF

 

ardiloso que fedia à coisa’antiga, mofento. mas caboclim, muxiba. cascavélico-sem-chocalho. Somente bandeirava quando o laço já estava na traquéia, esgoelando. conheci por dentro. babaovista dos bagos que rendessem uns bagarotes. não que fosse apegado, seu espólio dava a gastos, pros desengasgos. na minha trajetória imberbe o desengano primado. malaca-menor com laivo fascista, claro, escamoteava. inabilmente, mocó. não que lhe esquentasse a cachimônia. debicava pelas beiras sem nunca ter peito pra fuçar o suruje. viuvona de Stálin. nunca colou. tinha-me na palma, quase na prensa. eu sempre soube. BF, PF & Biquinha teriam a hora devida.

 

 

(Do romance Encarniçado, de João Filho, ed. Baleia, 2004.)



Escrito por Claudio Daniel às 23h02
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CALENDÁRIO POÉTICO

                       

                        Isabelle Adjani, musa da Pele de Lontra.



Escrito por Claudio Daniel às 17h27
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DODECAEDRO

 

Fragmento 3

 

Passos transfigurados em papoulas

e pupilas.

 

Qual desmesura

da anfíbia superfície?

 

Que alfabeto de poros

nessa esfera cúbica?

 

Em que tempo essa imagem

tatuou-te de ocelos?

 

Quais fraturas,

Que nós de água desatados?

 

No inverno branco

e atonal,

 

o  hibisco inventa

seu próprio mapa-múndi.

 

(CONTINUA EMBAIXO)



Escrito por Claudio Daniel às 17h25
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Fragmento 9

 

Nervuras na folha, inscrições; imprecisas cifras

de nuvens,

étoiles, epitélios:

tudo é número.

(Sou o tempo, disse-me

com lábios

de sal, ao encantar-se

em labirinto.)

 

* * *

 

Rastro de noites que se fundem em palavras

como jogos nupciais;

piscina selvagem onde recolho

os despojos de meu rosto.

 

* * *

 

Seria

o movimento

da memória

erigindo arquiteturas

de pele

em cada cena

vívida?

 

* * *

 

Tempo talvez

de reconfigurações?

 

* * *

 

Música, libações, dança, dança, dança.

 

 

(Fragmentos de um poema inédito de Claudio Daniel)



Escrito por Claudio Daniel às 17h24
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