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ÚLTIMAS NOTÍCIAS:
Caros, foi publicada uma entrevista com a minha pessoa no jornal Correio das Artes, da Paraíba, editado pelo incansável Linaldo Guedes. Quem ainda tiver saco de ler entrevista minha pode acessar a matéria no endereço http://cd-artes.blog.uol.com.br. Ah, sim, quem fez as perguntas foi o mujaheddin Astier Basílio, aliás editor de outro bom jornal de cultura, chamado Augusto. Bom weekend pra vocês, eu vou ler tragédias gregas. Ciao,
CD
Escrito por Claudio Daniel às 22h24
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DO DIVÃ OCIDENTAL-ORIENTAL
Sobre folhas de seda, não mais
escrever rimas simétricas.
Não mais enquadrá-las
em arabescos de ouro.
No pó, no movente, inscrevê-las:
o vento as dissipa, mas sua força vigora
até o centro da terra
enfeitiçada ao solo.
E vem o Errante, O-
-Que-Ama. É tocar neste
sítio, e todo o corpo
lhe estremece.
“Aqui, antes de mim, um outro amou!”
Medschnun, o frágil? Ferhad,
o forte? Dschemil, o perene?
Um outro entre os milhares?
Um mais, feliz-infeliz?
Ele amou! Eu amo como ele
e o adivinho!”
Mas tu, Zuleica, tu reclinas
sobre a dócil almofada
que para ti dispus e ornei.
E despertas, teu corpo estremece:
“É Hatém, que me chama! E eu também,
Eu chamo, eu te chamo: Hatém, Hatém!”
(Poema de Wolfgang von Goethe, traduzido
por Haroldo de Campos.)
Escrito por Claudio Daniel às 22h23
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HÁ ALGO DE PODRE NA INTOLERÂNCIA RACIAL
Para certos autores racistas, que divulgam na Internet crônicas a favor da guerra no Iraque e contra os muçulmanos em geral, alegando que eles nada produzem hoje de válido na área da cultura (sugerindo, portanto, que são inferiores a "sábios" como o cretino em questão), sugiro a leitura de poetas contemporâneos como o sírio Adonis (ver abaixo). Se não fosse suficiente o fundamentalismo irracional de gente como Bin Laden, temos de agüentar pseudo-poetas arrogantes e intolerantes, que fazem da escrita um pretexto para destilarem suas frustrações, conservadorismo e ignorância. Que Allah os perdoe!
Escrito por Claudio Daniel às 21h28
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QUATRO POEMAS DE ADONIS
FLOR DA ALQUIMIA
preciso viajar no horto da cinza
entre suas árvores ocultas
na cinza estão as fábulas o diamante e o velocino de ouro
preciso viajar na fome na rosa rumo às colheitas
preciso viajar descansar
sob o arco dos lábios órfãos
nos lábios órfãos em sua sombra ferida
está a antiga flor da
alquimia
ÁRVORE DO ORIENTE
fiz-me espelho
rebati tudo
mudei em teu fogo a cerimônia da água e da vegetação
mudei voz e apelo
passei a ver-te em dois
tu e esta pérola que nada em meus olhos
eu e a água nos fizemos amantes
nasço em nome da água
nasce em mim a água
eu
e a água
nos replicamos
(CONTINUA EMBAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 21h25
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ÁRVORE DA AFLIÇÃO
folhas avançam repousam nos sulcos da escritura
carregando a flor da aflição
antes que a palavra se torne
ferrugem
a multiplicar na casca da escuridão
folhas andantes avançam perfilam a terra do estranhamento
bosque após bosque
a carregar a flor da aflição
ÁRVORE DE CÍLIOS
... e quando resignei-me na ilha das pálpebras
em ser hóspede das conchas e dos rastros
vi que o destino é um frasco
com águas e fagulhas
pronto a fazer do homem
mito ou fogo lendário
e eu ia carregado sobre os ramos
num bosque lácteo enfeitiçado
o seu dia consagrado à loucura era
minha cidade e a noite recinto íntimo
(Poemas do sírio Adonis, traduzidos por Michel Sleiman e publicados no n. 6 da revista Coyote, inverno/2003.)
Escrito por Claudio Daniel às 21h25
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ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Saiu uma resenha da Et Cetera na edição do último domingo do jornal O Estado de S. Paulo, contou-me ontem, por e-mail, o amigo Wilson Bueno (pois é, as notícias às vezes chegam com atraso...). Consegui ler a matéria na Internet, ficou bem legal, ela cita os contos inéditos de Dalton Trevisan, a mini-antologia de poesia angolana e a entrevista / dossiê que fizeram com este seu criado. Os interessados podem buscar a resenha no site www.estadao.com.br (precisa cadastrar uma senha para acessar os artigos publicados, mas vale a pena).
Escrito por Claudio Daniel às 08h37
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Escrito por Claudio Daniel às 20h26
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GAZAL EM LOUVOR DE HAFIZ
Escuta o gazal que fiz,
darling, em louvor de Hafiz:
— Poeta de Chiraz, teu verso
tuas mágoas e as minhas diz.
Pois no mistério do mundo
também me sinto infeliz.
Falaste: “Amarei constantemente
Aquela que não me quis”.
E as filhas de Samarcanda,
cameleiros e sufis
Ainda repetem os cantos
em que choras e sorris.
As bem-amadas ingratas
são pó; tu vives, Hafiz!
(Poema de Manuel Bandeira, da Lira dos Cinquent’Anos)
O gazal (também chamado de gazel) é um poema lírico composto de 4 a 14 versos com uma única rima, do início ao fim, e sem divisão em estrofes. Seu maior expoente foi o persa Hafiz, do século XV. Nesta composição de Manuel Bandeira, temos aquilo que Ezra Pound chamou de “crítica pela criação no estilo de uma época”: o autor assumiu a persona de um poeta medieval do Oriente Médio para recriar esse gênero poético, mantendo a rima única mas dividindo os versos em dísticos. Outros autores que fizeram experiências similares foram Goethe (no Divã Ocidental-Oriental) e Garcia Lorca (no Divã do Tamarit), com maior liberdade na releitura do gênero. Em tempo: a palavra divã pode ser traduzida como “cancioneiro”.
Escrito por Claudio Daniel às 20h25
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Escrito por Claudio Daniel às 19h55
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DO DIVAN DE SHAMS DE TABRIZ, DE RUMI
[A LUA DE TABRIZ]
Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua.
De lá desceu e fitou-me.
Como o falcão que arrebata o pássaro,
essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei para mim, já não me vi:
naquela lua meu corpo se tornara,
por graça, sutil como a alma.
Viajei então em estado de alma
e nada mais vi senão a lua,
até que o segredo do saber divino
me foi por inteiro revelado:
as nove esferas celestes fundiram-se na lua
e o vaso do meu ser dissolveu-se no mar.
Quando o mar quebrou-se em ondas,
a sabedoria divina lançou sua voz ao longe.
Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito.
(CONTINUA EMBAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 19h54
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Logo o mar inundou-se de espumas,
e cada gota de espuma
tomou forma e corpo.
Ao receber o chamado do mar,
cada corpo es espuma se desfez
e tornou-se espírito no oceano.
Sem a majestade de Shams de Tabriz
não se poderia contemplar a lua
nem tornar-se mar.
Tradução: José Jorge de Carvalho.
Escrito por Claudio Daniel às 19h54
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