Cantar a Pele de Lontra




Escrito por Claudio Daniel às 23h29
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Vamos borboleta,

para as montanhas azuis

 

Vem também

borboleta-tigre!

 

Se no caminho

anoitecer

dormiremos

numa flor

 

Que a flor não nos acolha:

dormiremos

numa folha.

 

Sijô de autor anônimo

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 23h29
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Escrito por Claudio Daniel às 23h28
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Um cego carrega

outro nas costas

Pés sem meia

tamancos sem salto

 

Juntos atravessam

a ponte de tronco podre

 

Um Buda de pedra sob a ponte

dá uma bela

gargalhada

 

 

Sijô de autor anônimo

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 23h24
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Escrito por Claudio Daniel às 21h59
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Se é negro

dizem branco

Se é branco

dizem negro

 

Negro

ou branco

quem afinal

concorda?

 

Fecho os olhos, tapo os ouvidos

e não quero mais

saber disso!

 

 

Sijô de Kim Su-jang (1690 – ?)

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 21h58
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Montanhas de jade

não têm palavras

Águas correntes

não têm forma

 

Vento claro

não tem preço

Lua cheia

não tem dono

 

No meio de tudo isso

meu corpo forte

há de envelhecer

sem pesares

 

 

Sijô de Sóng Hon (1535 – 1578)

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 21h57
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Escrito por Claudio Daniel às 22h11
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Tudo o que ouço

se esvai

Tudo o que vejo

se dissolve

 

Agindo

assim

desconheço

desavenças

 

Apenas as minhas mãos firmes

empunham

o copo

 

 

Sijô de Song In (1517 – 1584)

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 22h09
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Escrito por Claudio Daniel às 22h08
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A montanha de outono

ao pôr do sol

tinge de vermelho

o espelho d’água

 

Sento-me

no barco

com a vara

de bambu

 

O deus celestial, vendo-me tão tranqüilo,

até me ofertou

a lua branca

 

                       

Sijô de Yu Ja-shin (1533-1612)

Tradução: Yun Jung Im e Alberto Marsicano



Escrito por Claudio Daniel às 08h27
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SOBRE O SIJÔ

 

O sijô é a forma clássica da poesia coreana, composta de três versos com um total de 45 sílabas. Em sua origem, era uma poesia cantada, como o oriki africano. Sua temática estava voltada a preceitos confucionistas, como a lealdade ao imperador e a devoção filial, mas também ao elogio da natureza, à reflexão sobre a impermanência dos fenômenos, além de poemas satíricos e amorosos. Com o passar do tempo, o sijô deixou de ser cantado e passou a ser escrito — e convém ressaltar que o alfabeto coreano é fonético, ao contrário da escrita ideográfica da China e do Japão. Sobreviveram até os dias de hoje cerca de 3.500 sijôs, reunidos em várias antologias. No Brasil, foi publicada pela Iluminuras, em 1994, uma bela coletânea: Sijô, poesiacanto coreana clássica, com prefácio de Haroldo de Campos e traduções de Alberto Marsicano e Yun Jung Im. Este livro é um bom exemplo de tradução criativa. Na impossibilidade de manter a estrutura métrica e estrófica dos textos originais, os tradutores converteram os três versos em três breves estrofes, para conservar o sentido dos poemas e ao mesmo tempo a concisão e a musicalidade. Vamos apresentar aqui, nas próximas edições da Pele de Lontra, uma breve mostra da poesia coreana, fiquem de olhos bem abertos... 



Escrito por Claudio Daniel às 08h25
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O beijo, de Gustav Klimt.



Escrito por Claudio Daniel às 08h19
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DODECAEDRO

(fragmento 11)

 

Palavra jaguar este olho vertigem olho vértice

olho vértebra —

desarvora o limo

palavra de vãos ventre voz

passos no limiar da voz

pássaros ao inverso

do vento.

 

* * *

 

Seria

uma refabulação

de prováveis?

 

— Desventra noite garganta pelugem febre

figuras de voz.

 

* * *

 

Porque a palavra jaguar

vertigem

vértice

vértebra

voz.

 

 

(CONTINUA EMBAIXO) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h18
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* * *

 

Expandidas em múltiplas variações plasmáticas,

musicais,  inflamam a fibra da fábula.

 

 

* * *

 

Hipotéticas linhas de mandala cores aéreas

quatro caminhos

caranguejo em galáxia noire

laborando

prismas.

Distância.

Realinhamentos.

 

* * *

 

Dodecaedro do scorpio:

universo de saliências

e suas revoluções.

 

 

(Poema inédito de Claudio Daniel; na verdade, fragmento

de um work in progress, mas este é um projeto sigiloso.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h16
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SAIU A NOVA ET CETERA

 

Caros, saiu o sétimo número da revista Et Cetera, publicada em Curitiba pela Travessa dos Editores. Esta edição traz vários biscoitos finos, como os contos de Dalton Trevisan e Micheliny Verunschk, poemas do russo Óssip Mandelstam, traduzidos pelo incansável André Vallias, uma antologia poética de Angola, que organizei, e artes visuais da artista plástica Maria Angela Biscaia. A entrevista é com um poeta chamado Claudio Daniel, que não conheço; no encarte, saíram sete poemas do autor (de um futuro livro chamado Fera Bifronte). Que mais? Saiu uma nova revista literária no Chile, El Navegante, que traz poemas de José Kozer, Reynaldo Jiménez,  Roberto Echavarren e desse insuportável C.D. (em tradução de Armando Roa Vial). Leiam abaixo algumas traduções do vate russo que saíram na ETC, e aguardem outras novidades. Ah, sim: quem quiser comprar a revista pode enviar e-mail para etc@travessadoseditores.com.br.



Escrito por Claudio Daniel às 08h11
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O poeta russo Óssip Mandelstam

(1891 – 1938)

 

 

Sem nada que deseje ensinar

Nem nada que soubesse falar,

Nada o golfinho gris ao fundo

Voraz-cinzento do mundo.

 

***

 

AKHMÁTOVA

 

Deu meia-volta, ah desgosto,

E olhou quem a fitava apático.

Caído, o xale falso-clássico,

Petrificado sobre o torso.

 

A voz de agouro – embriaguez

Amarga – as vísceras descerra:

Assim Rachel outrora fez

Nos palcos a indignada Phedra.

 

(Poemas publicados na Et Cetera n. 7,

com tradução de André Vallias)



Escrito por Claudio Daniel às 08h09
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