Cantar a Pele de Lontra


 

 

ORIKI DE OXUM

 

Oxum, mãe da clareza

Graça clara

Mãe da clareza

 

Enfeita filho com bronze

Fabrica fortuna na água

Cria crianças no rio

 

Brinca com seus braceletes

Colhe e acolhe segredos

Cava e encova cobres na areia

 

Fêmea força que não se afronta

Fêmea de quem macho foge

Na água funda se assenta profunda

Na fundura da água que corre

 

Oxum do seio cheio

Ora Ieiê, me proteja

És o que tenho —

Me receba.

 

(Tradução do iorubá: Antonio Risério) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h20
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ORIKI DE ORI

 

para Percy

 

meu ori meu deus

meu e só meu

meu deus meu destino

que escolhi

eu

mesmo (sem sabê-lo)

meu

 

minha matéria

palavra prima

minha palavra

secreta sina

 

o que me faz

a cabeça

é a palavra

perfeita

 

meu deus meu destino

que escolhi eu

meu ori meu deus

mesmo (sem sabê-lo)

que me escolheu

 

(Poema de Frederico Barbosa, do livro Brasibraseiro)



Escrito por Claudio Daniel às 08h19
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ORIKI DE IEMANJÁ

 

Iemanjá que se estende na amplidão

Aiabá que vive na água funda

Faz a mata virar estrada

Bebe cachaça na cabaça

Permanece plena em presença do rei.

Iemanjá se revira quando vem a ventania

Gira e rodopia em volta da vila.

Iemanjá descontente destrói pontes.

Come na casa, come no rio.

Mãe senhora do seio que chora.

Pêlo espesso na buceta

Buceta seca no sono

Como inhame ressequido.

Mar, dono do mundo, que sara qualquer pessoa.

Velha dona do mar.

Fêmea-flauta acorda em acordes na casa do rei.

Descansa qualquer um em qualquer terra.

Cá na terra, cala — à flor d’água, fala.

 

(Tradução do iorubá: Antonio Risério) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h35
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ORIKI DE ORUMILÁ

 

filho de olorum,

ibá olodumaré.

 

senhor do ifá,

sabe nomes

e caminhos.

 

ibá orunmilá

sabe todos

os destinos.

 

eliri ipin 

cuida de mim

 

em meus

descaminhos.

 

(Poema inédito de Claudio Daniel)



Escrito por Claudio Daniel às 08h34
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ORIKI DE OIÁ / IANSÃ (1)

 

Leopardo no ar alto

fuzilando a treva.

Ira e brisa pelos campos.

Corisco na cara da escuridão.

 

Senhora que incendeia

a casa da mentira.

Senhora sem medo algum.

Senhora que relampeia

entre os tambores do orum.

 

(Poema de Antonio Risério, do livro Brasibraseiro) 



Escrito por Claudio Daniel às 15h32
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ORIKI DE OIÁ / IANSÃ (2)

 

Leopardo que come pimenta crua.

Mulher de vestes vistosas.

Cabaça rara, diante do marido.

Eparrei!

O que Xangô disser

Oiá logo saberá.

Ela entende que Xangô

Nem chegou a falar.

E o que ele quiser dizer

Oiá dirá.

Ê ê ê-par-rei!

Oiá, árvores desarvora.

Adeus, morte.

Minha mãe da roupa de fogo.

Nada de mentiras para ti.

Nada de mentiras para ti.

As marcas da tua pele calam o alabé.

Oiá ô

Mulher neblina no ar.

Oiá, leopardo que come pimenta crua.

 

(Tradução do iorubá: Antonio Risério)

 

 

 

Em tempo: Diz outro oriki de Oiá: “Ê ê ê epa, Oiá ô. / Grande mãe. / Ia ô. / Beleza preta / No ventre do vento. / Aquela que luta nas alturas. / Que doma a dor da miséria. / Que doma a dor do vazio. / Que doma a dor da desonra. / Que doma a dor da tristeza”  Oiá, ô!” Que Iansã me proteja.



Escrito por Claudio Daniel às 15h30
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ORIKI DE XANGÔ

 

O que

lança pedras

de raio

contra a casa

do curioso

e congela

o olhar do

mentiroso.

Leopardo,

marido de Oiá.

Leopardo,

filho de Iemanjá.

Xangô cozinha

o inhame

com o vento

que sai

de suas ventas.

 

 

(CONTINUA ABAIXO)



Escrito por Claudio Daniel às 08h25
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Dá um nome novo

ao muçulmi.

Ele fica vivo

quando pensam

que já está morto.

Orixá que mata

o primeiro

e mata

o vigésimo-

quinto.

Xangô persegue

o cristão

com seu grito,

nuvem

que ensombra

um canto do céu.

Leopardo

de olhar coruscante,

não permitas

que a morte

me leve

um dia

antes.

 

(Poema de Ricardo Aleixo, do livro A Roda do Mundo.)

 

 

Em tempo: Diz um oriki tradicional de Xangô, traduzido por Antonio Risério: “Abalador / Alafim de Oió / Oluaxó — fera faiscante. / Rompemuros / Rasgaparedes / Racha e crava pedras de raio. (...) / Abalador, amante de Oiá / Amor  de dezesseis orixás / Tornou-se de todas elas.” Quem pode com um orixá desses? Ah, sim: confiram um oriki da Ana Ramiro no blog Girapemba (tem um link na lista aí ao lado). 



Escrito por Claudio Daniel às 08h23
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ORIKI DE OGUM

 

Silêncio. Cale-se a fala.

Nada na casa em nada bata.

Inhame novo ninguém vai pilar.

Ninguém vai moer nada.

Não quero ouvir menino vagindo.

Cada mãe que amamente o seu filho.

 

Quando Ogum despontou

Vestido de fogo e sangue

O pênis de muitos queimou.

Vagina de muitas queimou.

 

Senhor do ferro

Que enraivecido se morde

Que fere ferroa e engole

Não me morda.

 

Ogum foi a Pongá — Pongá ruiu

Foi a Akô Ire — Ire ruiu

Chegou ao rio — e as águas dividiu.

 

Terror que golpeia a vizinhança.

Ogum Oboró, comedor de cães, toma teus cães.

Ogum Onirê sorve sangue.

Molamolá fareja farelos.

Dono da lâmina, cabelo come

Senhor da circuncisão, come caracol

Ogum entalhador, madeira come.

Suminuiá, Ajokeopô.

Não me torture, Ogum terror.

Mão comprida

Que livra teus filhos do abismo

Livra-me.

 

(Tradução do iorubá: Antonio Risério) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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ORIKI DE EXU

 

Lagunã incita e incendeia a savana.

Cega o olho do sogro com uma pedrada.

Cheio de orgulho e de charme ele marcha.

Quente quente é a morte do delinqüente.

 

Exu não admite que o mercado se agite

Antes que anoiteça.

Exu não deixa a rainha cobrir o corpo nu.

Exu se faz mestre das caravanas do mercado.

Assoa — e todos acham

Que o barco vai partir.

Passageiros se preparam depressa.

Exu Melekê fica na frente.

O desordeiro está de volta.

 

(...)

 

Sua mãe o pariu na volta do mercado.

De longe ele seca a árvore do enxerto.

Ele passeia da colina até a casa.

Faz cabeça de cobra assoviar.

Anda pelos campos, anda entre os ebós.

Atirando uma pedra hoje,

Mata um pássaro ontem.

 

(Tradução do iorubá: Antonio Risério) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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SOBRE ORIKIS

 

Conforme explica Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki Orixá (editora Perspectiva, coleção Signos, 1996), oriki (ori, cabeça; ki, saudação) é uma modalidade de poesia oral, cantada (e dançada) de origem nagô-iorubá. Não possui métrica, rimas nem uma estrutura estrófica como o soneto ou o haicai, mas faz amplo uso de paronomásias, assonâncias e aliterações. Seu recurso básico, porém, é o epíteto, frase ou alcunha que indica uma característica do herói, rei ou deus que está sendo homenageado. Sua forma mais conhecida é o oriki de orixá, ainda hoje presente nos rituais de umbanda e candomblé na África, no Brasil, Cuba, Haiti e outros lugares de presença religiosa africana. No Brasil, vários poetas contemporâneos escreveram orikis, como o próprio Risério, Ricardo Aleixo e Frederico Barbosa. Divulgaremos alguns desses poemas nas próximas edições da Pele de Lontra.



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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