Cantar a Pele de Lontra


TERCEIRA CLAREIRA

 

Eu sou o Koumen

o da venerável barba

o investido de palavras ungidas

pelos espíritos finos

pelas almas delicadas

contra os espíritos densos

e os corações opacos.

Estou munido, contra os brutos

de uma lâmina que corta

e de um pó que explode posto ao fogo.

Enfeitiço com um ovo de avestruz

o último de uma ninhada

que recusou nascer.

Eu falo aos animais e as raízes

oferecem-me os seus segredos.

O murmúrio das fontes

o farfalhar da folhagem

as estrelas cadentes

todos me oferecem o seu segredo.

E da rola que arrulha

eu entendo o que diz

e da vaca que brame

eu conheço a palavra e não desprezo

a clarividência do aviso.

 

São os olhos que olham

é o espírito que vê.

 

 

(CONTINUA ABAIXO) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h22
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Conduzo Silé ao rio onde se encontra o âmbar

magnífico

que se destina às almas sem mácula.

Mulheres castas

homens defensores dos legítimos bens

eu vos saúdo!

 

Silé é poeta.

Divulgará o que é de divulgar.

Criará caminhos

descobrirá pastagens.

Ele saberá livrar-se dos de olhar altivo

e língua turbulenta.

E poderá guiar-me até aos cimos.

  

 

(Da tradição oral dos peul, tradução de Ruy Duarte de Carvalho)  



Escrito por Claudio Daniel às 08h21
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ESPOSAS DA ÁGUA

 

Disse-nos a mãe, e os outros disseram: há raparigas que a chuva carrega. E retém-nas na água para onde as carrega. Depois relampeja e morrem. Tornam-se estrelas e a sua aparência muda: tornam-se estrelas. Por isso a mãe nos disse, e os outros disseram: rapariga que é levada pela chuva transforma-se em flor e cresce nas águas. Nós, que nada sabemos, quando as vemos na água, quando as vemos tão lindas, dizemos assim: colherei estas flores que cresceram na água. Não é coisa pouca a sua beleza. Mas a mãe e os outros já nos tinham dito: uma flor assim, se vê que a procuram, mergulha na água. E então nós pensamos: era aqui que estavam, onde estão agora? Não as vemos mais, no sítio em que estavam. Desaparecem, quando as procuramos. Não devemos sequer dar conta delas: esconder-se-ão na água. Por isso a mãe e os outros disseram que não devemos procurar tais flores: são raparigas. Parecem flores por causa da chuva. São as esposas da água. Olhamos para elas mas passamos ao largo. Poderíamos sofrer o que elas sofrem. O cabelo da nossa cabeça será como as nuvens, quando nós morrermos. E quem não souber dirá que são nuvens. Mas nós, que sabemos, ao vê-las diremos: são nuvens de gente, feitas do cabelo das nossas cabeças. Nós quando morremos produzimos nuvens.      

 

 

(Da tradição oral dos bosquímanos. Tradução do Ruy Duarte de Carvalho.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h21
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VIAJA A SOMBRA, O CORAÇÃO VARIA

 

De caça só conhece quem andou com os caçadores.

Ninguém procura a água

em pedra que a não tem.

Não saberei da causa

quando estou doente

nem saberei donde a doença vem.

Mas quando falo cuido da palavra

que habita o coração e se desloca

do repouso à sombra.

A figueira só dá flor

no seu tempo de florir

e em terra de termiteira

não germina o grão de orquídea.

Viaja a sombra, o coração varia.

A sede leva-me ao rio

a fome aos meus inimigos.

Disse a hiena:

gente é com gente!

Embora a pedra só revele a face

existe sempre um coração na pedra.

E acenam-se os corações

se é dura a face ou contraída a fala.

 

(Da tradição oral dos nyanekas. Tradução do Ruy Duarte de Carvalho.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h20
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ENSINAMENTO ORAL DO KORÉ

 

A voz dos Karaw

 

Ondula, savana

savana branca

até que tudo se confunda em ti.

 

Oh fragmentadores da noite crepuscular

por detrás dos animais só há obscuridade

e obscuridade só

pela sua frente.

O poderoso hipopótamo

está perdido num bosque sem saída.

Já quando quis entrar

recorreu a uma pequena criatura

cega como ele e como ele perdida.

Como fará o cego para que possa ver?

Será capaz de assegurar ao passo

a graça da cadência original?

 

A fornalha poupou-nos

preparou-nos

para atravessar as portas do mistério.

 

(...) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h38
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Eis a Palavra, é esta

a que não dorme

a que não cessa de aguardar

no coração dos homens.

Conhece-se apenas o urso formigueiro

visionário que escava no mais fundo

e o porco-espinho

que é o mestre protetor do conhecido herdado

e o falcão branco

que é rápido e ladino

e se apercebe de tudo ao mesmo tempo.

Mas foge ao falcão cinzento

que não se fixa e voa distraído.

 

Aquilo que eu sei

Alguém mo legou.

Pai Palavra

Mãe Palavra

Palavra anterior

Vem e transforma já o meu futuro.

 

(Da tradição oral dos bambaras)

 

 

Em tempo: este poema foi extraído de um livro fascinante, Ondula, savana branca, organizado e traduzido pelo angolano Ruy Duarte de Carvalho. É uma antologia poética da tradição oral africana de várias etnias, dos iroubás aos zulus, dos bambaras aos swahilis. Foi publicado em Portugal, pela editora Sá da Costa, em 1982. Uma verdadeira jóia para quem quiser mergulhar na poética ancestral da África. Quem me deu esse livro foi o amigo inestimável Leonardo Gandolfi.



Escrito por Claudio Daniel às 08h38
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A PRIMEIRA-DAMA DAS VANGUARDAS

Gertrude Stein, retratada por Picasso.

 

 

 

GEORGE HUGNET (fragmento)

 

George e Genevieve.

Gerônimo com um com quer eles pensassem que estavam com quer.

Sem descobrirem sequer. Sem. Eles descobrirem sequer. Com quer.

George quer quisessem qual quer. Com descobrirem o que quer que

descobrirem sequer que quer que eles descobrirem que qualquer quer.

George com descobrirem qual se quer quer.

George quer com qualquer sequer.

Requer se com qual quer.

Com sequer que se quer qual quer.

Anil pode ser qualquer.

É melhor melhor que mel.

George em nós há anel.

Jaz de lado acordado.

George em nosso anel.

George Genevieve Gerônimo acertaram qual quer sem descobrirem

sequer.

Gramática faz George em nosso anel o que Gramática faz George em

nosso anel.

Gramática está mais desapontada não está mais gramática está mais

desapontada.

Gramática não está mais Gramática está mais desapontada.

George em nosso anel. Gramática está não está desapontada. Em nós

há anel.

George Genevieve em nós há anel.

 

 

(Poema de Gertrude Stein, traduzido por Augusto de Campos,

em Porta-Retratos, Noa Noa, 1989). 



Escrito por Claudio Daniel às 08h41
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NOSSOS COMERCIAIS, POR FAVOR

 

 Para os que desejam protestar contra a distorção e manipulação dos fatos por esse veículo da família Civita, recomendo o blog http://noveja.blogspot.com.



Escrito por Claudio Daniel às 08h35
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Tela do artista plástico angolano Sanches

 

 

ODISSÉIA

 

Na grafia

vegetal

do teu mar

 

desliza

o mito

doutro ser

 

agrilhoado

ao sedentário mastro

do meu corpo

 

teu oiro

de kianda

na metálica

 

dimensão

do meu

flanco

 

(Poema do angolano José Luís Mendonça)



Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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