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WHITMAN EM DOBRO

O poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892)
Ele não parece o Papai Noel?
CERTA VEZ NUMA CIDADE
Uma vez passei por uma cidade populosa impressa em meu cérebro para uso futuro com seus shows, arquitetura, costumes, tradições,
No entanto tudo que me lembro daquela cidade agora é de um homem que encontrei ao acaso que me deteve por seu amor a mim,
Dia após dia e noite após noite ficamos juntos — o resto há tempos esqueci,
Lembro-me só daquele homem que apaixonadamente se agarrou em mim,
De novo vagamos, amamos, e nos separamos,
De novo ele me segura em seus braços, diz pra não partir,
Vejo-o bem perto do meu lado com lábios silenciosos e trêmulos.
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes.)
Em tempo: caros, acaba de sair uma nova edição de Folhas da Relva, do poeta norte-americano Walt Whitman, traduzida por Rodrigo Garcia Lopes, pela Iluminuras. O livro ficou uma beleza, no formato da primeira edição da obra, que saiu em 1855. Este é um dos lançamentos mais importantes do ano, e já tem lugar reservado em minha estante... apenas para seguirmos o método poundiano das comparações, coloquei abaixo a versão de Geir Campos, que saiu em 1983, pela Brasiliense (Folhas das Folhas da Relva, com prefácio de Paulo Leminski). Notem que na primeira tradução se fala num homem, e na segunda numa mulher. Motivo: Whitman, homossexual, fez a mudança no poema por causa do puritanismo americano da época (que ressurge hoje, na Era Bush).
Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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CERTA VEZ NUMA CIDADE
Certa vez eu passei
por uma cidade bem populosa,
guardando no meu cérebro impressões
para futuro emprego,
com suas mostras, sua arquitetura,
costumes, tradições,
embora dessa cidade eu agora
me lembre apenas de uma mulher
que encontrei por acaso
e me deteve por amor de mim
e juntos estivemos
dia por dia e mais noite por noite
— posso afirmar que só me lembro mesmo
dessa mulher que se apegou a mim
apaixonadamente,
de quanta vez andamos, nos amamos,
de novo nos deixamos
de novo ela a pegar-me pela mão,
e eu sem precisar ir:
vejo-a bem perto a meu lado
de tristes lábios trêmulos
calados.
(Tradução: Geir Campos)
Escrito por Claudio Daniel às 08h24
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CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS
ETC: Como é o seu processo criativo? Quanto tempo você dedica ao fazer poético?
CD: O meu processo criativo é contraditório e obsessivo. Não é possível, para mim, seguir uma rotina, fazer algo sistemático. Posso estar no metrô, na rua, lendo um livro, e de repente me ocorrer uma imagem ou palavra, que anoto. Posso estar dormindo e sonhar com uma palavra ou com dois versos. Então, acordo e anoto também. Isso acontece nas situações e lugares mais imprevisíveis. É como se eu estivesse o tempo todo fazendo poesia, ainda que executando outras atividades. Porém, a intuição, o acaso, apenas despertam a fagulha inicial do poema; depois vem o trabalho consciente, planejado, de arte-final, que pode levar minutos, semanas ou anos. Também ocorre de eu planejar o poema antes de escrevê-lo: escolho o tema, penso no título, imagino a disposição visual das linhas, seleciono as palavras-chave que irei usar, os recursos lingüísticos; então, de repente, surge um verso que desencadeia os outros. Tudo é um jogo entre logos e eros, razão e acaso.
Traduzir é exercício, uma estrada, uma possibilidade para o poeta encontrar elementos e recursos para se reinventar?
A tradução é uma conversa inteligente com poetas que você admira. É uma maneira de estudar poesia, técnicas e processos. Aprendi muito com os poetas que traduzi, como a mexicana Coral Bracho ou o argentino Néstor Perlongher. Quando você traduz um poema, é preciso repetir, de certo modo, o processo criativo do texto original, entrar na pele do autor e pensar no peso de cada palavra, sua sonoridade e sentido, bem como nas relações verbais em cada linha, estrofe e da peça em seu conjunto. Sem dúvida, é impossível recriar o poema em sua integridade, pois cada língua tem música e pensamento próprios; no máximo, quando a tradução é bem-sucedida, conseguimos trazer um pouco do aroma, da arquitetura, do charme sutil do texto de partida, convidando o leitor disponível à leitura atenta do original.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h25
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Fala-se que a poesia não tem função. Qual seria a função da poesia hoje?
Definir a função da poesia seria limitá-la, encerrá-la nas quatro paredes de um conceito. Eu prefiro usar a palavra visão, que é sempre pessoal e subjetiva. Para mim, a poesia é um trabalho meticuloso com as palavras, uma busca permanente da estranheza e do imprevisto, daquilo que nos causa perplexidade. Um poema que não me deixa surpreso, que não me tira da normalidade, não me acrescenta nenhuma dúvida, espanto ou certa dose de desespero, não me interessa em nada.
Quem são os autores que lhe tiram da normalidade, que lhe provocam surpresa?
Paul Celan, Herberto Helder, Lezama Lima e Haroldo de Campos são poetas que sempre releio com interesse. Há uma zona de permanente desconhecimento em suas obras, algo que me fascina e perturba; cada nova releitura é única, como se fosse a primeira, pelo grau de inquietação, densidade e capacidade imaginativa. Sempre há uma metáfora, uma palavra, uma construção que eu que não havia percebido antes. Ler estes poetas é não apenas prazeroso, mas um contínuo aprendizado. Poderia citar também Augusto de Campos, Josely Vianna Baptista, Horácio Costa, Claudia Roquette-Pinto, Júlio Castañon Guimarães, Arnaldo Antunes, Duda Machado, Ricardo Aleixo, Ademir Assunção e Contador Borges, que me encantam com suas partituras do inusitado.
(Trechos da entrevista que o Márcio dos Santos fez comigo para a próxima edição da revista Et Cetera.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h24
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TSÉ TSÉ: Claudio, quiero empezar preguntándote sobre tu experiencia, el año pasado, en el monasterio budista, y, si te parece, desde ahí entrar a tu concepto de la escritura de poesía.
Claudio: Rey, na verdade, o meu interesse pela filosofia budista começou em 1990, quando estive no mosteiro zen Morro da Vargem, no Espírito Santo. Essa viagem foi motivada por minha descoberta da poesia japonesa, e em especial Bashô, que me encantou com suas imagens precisas, breves, imprevistas: pequenas paisagens verbais construídas com poucas palavras, mas de grande intensidade e concentração (tal como ocorre na pintura sumiê ou nos arranjos florais). Para entender melhor o que era o haicai, fui estudar o zen, primeiro nos livros (Suzuki, Herrigel), que é a maneira inadequada de compreender essa filosofia, e depois pela prática meditativa. Esse contato mais próximo com o zen foi breve, mas trouxe benefícios para mim, na vida e na poesia (não pratiquei o haicai, mas os meus poemas ficaram contaminados pela brevidade das linhas e por imagens concisas). Confesso que o tema espiritual sempre foi delicado para mim. Durante a minha juventude, fui ateu e tive completa aversão a tudo o que se relacionava à matéria religiosa; isto ocorreu pela minha recusa da fé cristã (por sua história de inquisições, cruzadas, apoio a regimes autoritários e falso moralismo), e também pela leitura de autores como Nietzsche, Freud e Marx, que me entusiasmaram desde a adolescência até a idade madura. Porém, após a queda do Muro de Berlim, a derrocada das utopias e o surgimento do consenso neoliberal, senti a necessidade de buscar outros modelos de ética e humanismo, como contraponto ao processo de robotização (ou idiotização) do ser humano.
(CONTINUA EMBAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h40
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Nessa busca, estudei muita coisa, além do zen-budismo: doutrinas da Índia (Shankara, Ramakrishna), da China (Lao Tzu, Chuang Tzu), místicos ocidentais (Plotino, San Juan de la Cruz), alguns filósofos pouco convencionais (Montaigne, Schopenhauer), com espírito aberto, sem preconceitos. Foi a descoberta de um oceano, de um universo com argumentos que satisfaziam a minha racionalidade (muita coisa da física, da astronomia e da psicologia remontam a esse pensamento ancestral; está tudo ali nos Vedas!) e o desejo de uma ética profunda, baseada na compaixão e no cultivo da paz. Para encurtar a história: após conhecer um pouco dessas diferentes tradições, escolhi como caminho pessoal a via do budismo tibetano, o Vajrayana (talvez por ser mais barroco, em sua iconografia, cerimônias e prática mântrica; brinco, o que me seduziu aqui foi o seu modo de exposição do dharma, em harmonia com a vida ocidental, e o charme irresistível de Lama Gangchen Rimpoche).
Quem ler isto talvez pense em mim como um monge, lunático ou excêntrico, o que é parcialmente verdade. Confesso, porém, que sou um péssimo budista, relaxado, rebelde, indisciplinado; não recuso vinho e tabaco, nem deixo de sentir paixão e fúria. Sou, desde sempre, obsessivo, contraditório, ambíguo. Estou muito longe de ser um boddhisattva. Porém, considero que estou melhor hoje do que antes, por saber lidar melhor com as confusões da mente, saber que todos os fenômenos são mutáveis, impermanentes, e logo irreais. Tenho a esperança de um dia mergulhar mais a fundo na jornada espiritual, que talvez seja o único motivo real de estarmos neste mundo. Respondendo (finalmente!) a sua pergunta: não estive num mosteiro, no ano passado, mas num retiro de meditação realizado num belíssimo sítio em Minas Gerais. Foi uma pequena epifania, um breve instante de deslumbre, e momentos como esse são sempre raros, profundos e indispensáveis para suportarmos a dor.
(De uma entrevista que Reynaldo Jiménez fez comigo, para o próximo número da revista argentina Tse Tsé.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h40
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Moi même, clicado por Juvenal Pereira.
ETC: Você se interessa por vozes de países latino-americanos, em especial da vereda neobarroca, mas, recentemente, tem se interessado por autores africanos de língua portuguesa...
CD: Comecei a me interessar pela poesia de vanguarda da América Latina aos 28 anos, quando li pela primeira vez En la Masmédula, de Girondo, Trilce, de Vallejo, e Altazor, de Huidobro, livros que me causaram forte impressão, por serem muito diferentes daquilo que foi desenvolvido pelo Modernismo brasileiro (a única aproximação possível, talvez, é com Oswald de Andrade). Depois, descobri Octavio Paz e essa tendência ainda pouco compreendida e assimilada que se convencionou chamar de Neobarroco, onde se incluem autores como o cubano José Kozer, o uruguaio Victor Sosa e o argentino-peruano Reynaldo Jiménez, entre muitos outros. Fiquei fascinado com as experiências de linguagem realizadas por esses poetas: a adoção de uma sintaxe não-linear, menos gramatical do que analógica e rítmica; o vocabulário rico, onde rutilam os neologismos, arcaísmos, termos regionais, palavrões e formas coloquiais, numa luxúria semântica; e sobretudo a quebra de fronteiras entre territórios lingüísticos e culturais, históricos e geográficos, numa mescla insurgente de signos. Como resultado dessas leituras e reflexões, organizei a antologia Jardim de Camaleões, a Poesia Neobarroca na América Latina, publicada há pouco pela Iluminuras. Certamente, há irradiações da pérola irregular em meus escritos, sobretudo na prosa (no Romanceiro de Dona Virgo, que saiu pela Lamparina, por exemplo), mas não me considero um autor “barroco”, assim como não sou “simbolista” ou “concreto”. Gosto de beber em águas de diferentes fontes e realizar a poesia possível, que corresponda a minhas obsessões.
(CONTINUA EMBAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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Há pouco tempo, comecei a ler com interesse poetas africanos de língua portuguesa, como o moçambicano Luís Carlos Patraquim e os angolanos Abreu Paxe e Jorge Arrimar (este último mora hoje em Macau). Acho muito curioso que tais poetas sejam quase desconhecidos no Brasil. Isso ocorre, talvez, porque a nossa poesia, durante muito tempo, dialogou com a francesa e a norte-americana, deixando de lado outras literaturas, e isso é gritante no que diz respeito à lusofonia. Não sabemos o que está sendo feito em Angola, Moçambique, Goa, Timor Leste e demais lugares onde se fala a língua portuguesa. O diálogo com Portugal existe, mas é parcial e pouco criterioso (Fiama Hasse Pais Brandão, que quase ninguém conhece por aqui, é muito mais interessante do que Adília Lopes, por exemplo; de Herberto Helder, temos apenas dois livros editados, uma antologia poética e um volume de prosa). Com a África, apesar da rica contribuição nagô-iorubá para a nossa cultura, não temos relação alguma hoje, o que é uma lástima. Se você for a uma grande livraria brasileira, não encontrará nenhum livro de poetas africanos, no máximo, poderá localizar um romance de Mia Couto. Esse silêncio é injustificado, pela enorme riqueza e variedade da poesia de Angola e Moçambique, e motivou-me a fazer pesquisas nesse campo.
(De uma entrevista comigo que sairá na próxima edição da revista Et Cetera, aguardem.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h25
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SIBILAS
Temeroso, perguntei às sibilas:
Viver vale a pena?
Dentro da escura gruta
Elas teciam com fios de aranha
Davam violetas aos dragões
E nem perceberam a minha presença.
LENDAS
De monges
De alfanges
De lutas
De glórias
Do Ocidente
Do Oriente
De mulheres lindas
De anões corcundas.
(Dois poemas de Orlando Teixeira, meu pai, que faleceu no dia 16 de dezembro, de parada cardio-respiratória. Deixou o livro inédito O Tocador de Ocarina.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h16
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