Cantar a Pele de Lontra


       L’oeil bleu du vulcan, de Joan Miró.

 

 

NOTAS AVULSAS

 

Caros, hoje o escritor Paulo Sandrini, de Curitiba, estará lançando o livro Códice d'Incríveis Objetos, publicado pela Travessa dos Editores, na Mercearia São Pedro, rua Rodésia, 34, Vila Madalena. No sábado, tem a festa dos dez anos da editora Ateliê, na Pinacoteca do Estado, quando será lançado o livro Périplos, de Simone Homem de Mello. E a Casa das Rosas tem uma programação bem interessante de cursos e oficinas para 2006, que em breve divulgarei aqui. Leiam abaixo um poema de Ciao Cadáver, do Delmo Montenegro, que saiu há pouco pela Landy:



Escrito por Claudio Daniel às 08h38
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CIAO CADÁVER

 

 

luxo-caveira: divertissements

-necropsia

 

ludopédia

câncer

 

ludopédia

sífilis

 

mandíbula-bistrôt: vagina

 

lux

potest: sangria

 

tudo sangra sob os estrobos

 

discopélvis

 

disclampsia

 

discohell

 

 

(Poema de Delmo Montenegro)

 

 

Ciao Cadáver é uma partitura de ossos, nervos e entranhas expostos. Um cadáver que se abstrai da própria morte e paira suspenso na música de um novo léxic, da ‘língua-cóccix’ que une o alto e o baixo num não-lugar que é aquele da arte, do suave-duro, do claro-escuro que não é penumbra, mas antes lucidez.”

 

 

(Da “orelha” de Micheliny Verunschk ao livro Ciao Cadáver, de Delmo Montenegro, publicado neste ano pela editora Landy, na coleção Alguidar.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h37
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Retrato de Rilke por Paula Modersohn-Becker.

 

 

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes

sobre as coisas, alto no ar.

Não completarei o último, provavelmente,

mesmo assim irei tentar.

 

Giro à volta de Deus, a torre das idades,

e giro há milênios, tantos...

Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade,

ou um grande, um grande canto.

 

(Rainer Maria Rilke, traduzido por José Paulo Paes,

op. cit. Tem outro poema aí embaixo.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h33
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O SOLITÁRIO

 

Não: uma torre se erguerá do fundo

do coração e eu estarei à borda:

onde não há mais nada, ainda acorda

o indizível, a dor, de novo o mundo.

 

Ainda uma coisa, só, no imenso mar

das coisas, e uma luz depois do escuro,

um rosto extremo do desejo obscuro

exilado em um nunca-apaziguar,

 

ainda um rosto de pedra, que só sente

a gravidade interna, de tão denso:

as distâncias que o extinguem lentamente

tornam seu júbilo ainda mais intenso.

 

(Rainer Maria Rilke, traduzido por Augusto de Campos, op. cit.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h32
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DUAS VERSÕES DE RILKE

(Rainer Maria Rilke, 1875-1926)

 

 

A PANTERA

(No Jardin des Plantes, Paris)

 

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,

está fatigado, já nada retém.

É como se existisse uma infinidade

de grades e mundo nenhum mais além.

 

O seu passo elástico e macio, dentro

do círculo menor, a cada volta urde

como que uma dança de força: no centro

delas, uma vontade maior se aturde.

 

Certas vezes, a cortina das pupilas

ergue-se em silêncio. — Uma imagem então

penetra, a calma dos membros tensos trilha —

e se apaga quando chega ao coração.

 

(Rainer Maria Rilke, traduzido por José Paulo em Paes, em Poemas, ed. Companhia das Letras, 1993. Veja outra tradução deste poema aí embaixo.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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A PANTERA

(No Jardin des Plantes, Paris)

 

De tanto olhar as grades seu olhar

esmoreceu e nada mais aferra.

Como se houvesse só grades na terra:

Grades, apenas grades para olhar.

 

A onda andante e flexível do seu vulto

em círculos concêntricos decresce,

dança de força em torno a um ponto oculto

no qual um grande impulso se arrefece.

 

De vez em quando o fecho da pupila

se abre em silêncio. Uma imagem, então,

na tensa paz dos músculos se instila

para morrer no coração.

 

(Rainer Maria Rilke, traduzido por Augusto de Campos, em Coisas e anjos de Rilke, ed. Perspectiva, coleção Signos, 2001.) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h25
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Les montagnards V, de Joan Miró.

 

 

Comparsas, anotem em suas agendas: no próximo sábado, dia 17 de dezembro, a partir das 11h, haverá o lançamento do livro Périplos, de Simone Homem de Mello, uma das poetas mais interessantes da safra nova.  O evento será na Pinacoteca do Estado, na Praça da Luz, n. 2, tel. (11) 3229-9844. Ah, claro, o livro foi publicado pela editora Ateliê, que comemora dez anos de atividades. Périplos reúne 31 poemas escritos entre 1994 e 2003, numa seqüência não-cronológica. Vocês podem ler o posfácio que escrevi para o livro em minha coluna no site Cronópios, e há poemas da autora nas revistas eletrônicas Trópico e Zunái. Leiam abaixo uma das peças do livro:



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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KOUROS I

 

De quem adia

com os olhos

(visionário)

o que acabou  de
se gravar à pele:

deitado ao chão,

o mármore

semilapidado,

dissimula-se às tantas

curvas do relevo,

esquecido do cinzel.

Divaga

(lisa malícia essa,

a que seus lábios

acabam de esboçar)

ainda ao alcance

das mãos, ainda

pouco depois de

a pedra romper,

quem o esculpia

se ausentou

a meio caminho:

e ele,

ele, tosco,

no descampado.

Do mármore, o grafismo

marca traços ausentes,

sua face, sempre outra,

à contraluz. sob um sol

eclipsado,

obscurece, repentino,

ele,

ofuscado pela sombra

interina

(que tanto se pensa
infinda quanto passa),

deslembrado

de cada réstia

de luz já vista.

 

(CONTINUA) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h29
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Aquele instante era sem prazo:

lapso do restante,

não consentia

nenhum depois –

enquanto

o Kouros de Naxos

dorme em Melanes,

sob tamariscos.

Aquela sombra o cegou.

E a boca, entreaberta,

(seus lábios incharam)

soletrou

que o êxtase

é um corte.

 

 

(Poema de Simone Homem de Mello, do livro Périplos)



Escrito por Claudio Daniel às 08h29
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O poeta Augusto de Campos, autor da Caixa Preta.

 

 

Zunái, Revista de Poesia e Debates, apresenta em sua oitava edição um caderno especial sobre os 50 anos da Poesia Concreta, primeiro movimento de vanguarda surgido no Brasil com repercussão internacional. A poesia brasileira recente está representada por autores como Carlos Augusto Lima, Wilson Sena e Izabela Leal, e o link de traduções traz poemas de William Carlos Williams, Tristan Tzara, César Vallejo, Cummings e Michaux, entre outros. Ensaios sobre poesia portuguesa e latino-americana incentivam o diálogo entre os dois universos lingüísticos, seguindo a proposta da revista de ampliação do repertório literário. Uma entrevista com o poeta cubano José Kozer e uma matéria especial sobre Franz Weissmann são outros destaques da edição, que apresenta ainda obras da artista plástica Maria Angela Biscaia, com ensaio de Francisco Faria e Josely Vianna Baptista.

 

Extra: confiram também a comunidade da Zunái no Orkut! 



Escrito por Claudio Daniel às 08h20
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