Cantar a Pele de Lontra


DOIS FRAGMENTOS DE HERBERTO HELDER

 

 

Sou uma devastação inteligente.

Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.

A madrugada ou a noite triste tocadas

em trompete. Sou

alguma coisa audível, sensível.

Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,

feita o sentar-se.

Ou flores bebendo a jarra.

O silêncio estrutural das flores.

E a mesa por baixo.

A sonhar.

 

(Fragmento de Poemacto, 1961)

 

 

* * *

 

 

Abrindo no escuro, durante toda a neve,

os copos,  os vestidos, os mapas.

E dentro de mim, rompendo peixes,

uma noite sensível cor de martelos.

Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse

martelo louco

nas borboletas. Então o meu cabelo

respirava — cabelo quente, telha

molhada.

 

Neve, borboleta, vírgula, estátua.

 

(Fragmento de Joelhos, salsa, lábios, mapa)



Escrito por Claudio Daniel às 10h54
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A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner

Andersen (1919-2004).



Escrito por Claudio Daniel às 15h42
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PERFEITO

Perfeito é não quebrar 
A imaginária linha
Exacta é a recusa
E puro é o nojo

 

 

O TEU ROSTO


É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.

 

 

ENCRUZILHADA


Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
- Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.

 

 

(Poemas de Sophia de Mello Breyner Andersen)



Escrito por Claudio Daniel às 15h41
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NUM QUADRO DE EDWARD HOPPER

a vida destrói

um sol

quase esquecido

numa tela

de hopper:

 

o posto de gasolina

abandonado,

 

onde um senhor,

talvez o dono,

 

em seu ócio,

rega a grama

 

com sua bomba

de petróleo.

 

 

(Poema de André Dick, do livro Grafias)

 

 

 

RAPIDINHAS: a revista eletrônica Critério já está on line, com um material de ótima qualidade, com destaque para o dossiê dedicado ao poeta Francis Ponge. Confiram em http://www.revista.criterio.nom.br. E anotem em suas agendas: o poeta pernambucano Delmo Montenegro estará lançando o livro Ciao Cadáver no próximo dia 29, terça-feira, a partir das 19 horas, e não preciso dizer onde. Preciso? Tá bom, vale a redundância: na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, na Avenida Paulista, n. 37. 



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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MUSTH

Tudo esquematizado. Abandonar

a música. Ficar só com os músculos.

Abastecer com urros a manada

de meninos tomados pelo rumo.

Defesas, tromba, másculas batidas,

dor onde ninguém pode chegar perto:

na imaginação de uma divisa,

na agonia infinita porque quer

que passe logo rápido mas volta

o primeiro desejo de ser nela.

O amor está sozinho mesmo agora

que o corpo não comporta tanto. Resta

catalogar mais uma variante

de viver, esse lapso de elefante.

 

(Poema inédito de Lígia Dabul)

 

 

 

PENSAMENTO DO DIA:

 

“Queria fazer poemas que não gerassem linguagem,

mas que a suprimissem.”

 

— Joan Brossa



Escrito por Claudio Daniel às 08h28
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CÉU VERMELHO

Tela de Goeldi.

 

 

1. Os peixes escrevem

possibilidades:

mar é pele

Multiplicam-se

Escamam-se

noutras texturas

inclusos em

sangue

sulcos

 

 

2. Os peixes grafam

salmos:

a pele é pagina –

dorso riscado

tinta azul

céu-sangue

branco

 

 

(CONTINUA)



Escrito por Claudio Daniel às 08h09
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3. Os peixes cometem suicídios alheios

Deslizam pela gastura vermelha de outro deserto

Nadam com as guelras gastas

Visitam-nos quando querem

Os peixes, no seu sono de vivos,

desenham letras neste mar –

fotografamos tudo

sempre a pensar

no vermelho

 

 

4. Os peixes, cardume de

incertezas, cingem o

coração: muro vivo de

escamas

Possibilitam

acelerações

taquicardias

Bombeiam o sangue

e explodem

neste deserto

de vontades

 

(CONTINUA) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h08
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5. Os peixes multiplicam

os peixes

Duplos de si

explodem certezas

Escamam-se noutros

peixes:

escamas são páginas

sulcos

Os peixes são os peixes

e são nós

 

 

(Poema de Franklin Alves, do livro inédito Céu Vermelho.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h08
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Louise Brooks, protagonista de A Caixa de Pandora, de Pabst (1928).



Escrito por Claudio Daniel às 08h23
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DE UM POSTAL DO PARAÍSO DE CREUZFELDER,
EXTRAVIADO NAS ÁGUAS DE PIEGNITZ

 

À guisa da serpente,

ela seduz, sibilina,

ou simula traduzir

ao invento (Adão atenta)

o intento do artífice.

Por um fio, seus muitos,

Eva reconduz, ardilosa,

a mão de quem forjou

da argila (adamah) à forma,

e a remodela: verte o gesto,

a dedos, em reticência.

Da tríade intérprete

translitera, em ofício ofídio,

o código do artífice

em antídoto,

e protela (Adão aguarda)

o que no princípio.

Em mímica ambígua,

diz e dissimula,

inocula, precisa,

a dúvida, finca

a presa, desnuda

a falácia da língua

dita adamítica.

Ela protrai a palavra

(Adão retrai),

e por um sopro,

converte o molde

em verve sinuosa.

Eva desvirtua:

enquanto o verbo

dilui-se em deflúvio.

 

(Poema de Simone Homem de Mello)

 

 

Este poema faz parte do livro Périplos, que será publicado em dezembro pela Ateliê Editorial. Há poemas da autora (que mora em Berlim, onde escreve libretos para óperas de vanguarda, mas está fazendo visita a Sampa) nas revistas eletrônicas Zunái e Trópico, e um ensaio que escrevi sobre ela em minha coluna Figuras Metálicas, na Cronópios. 

 

 

AGENDA LITERÁRIA: amanhã, terça-feira, a partir das 20h, o poeta Fabiano Calixto estará na Casa das Rosas, como entrevistado, dentro do ciclo Rompendo o Silêncio. Eu estarei lá, prestigiando o comparsa e brother, autor de Fábrica (Alpharrabio, 2001) e que lançará em breve Música Possível, pela coleção Ás de Colete. O endereço? Avenida Paulista, n. 37!



Escrito por Claudio Daniel às 08h19
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