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Felizmente, ele não foi o “bom velhinho”.
ÁPORO
Um inseto cava cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
(Poema de Carlos Drummond de Andrade, do livro A Rosa do Povo)
Escrito por Claudio Daniel às 17h11
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RESGATAR DRUMMOND
Poeta culto, com controle consciente dos recursos da escritura, Drummond, em seus picos epifânicos, está mais próximo do brado futurista de um Maiakóvski do que da imagem cândida de "bom velhinho", ou poeta convencional, bem-comportado, que muitos gostariam que ele tivesse sido. Felizmente, não foi. Longe de se confinar à imagem habitual de retratista do cotidiano, confessional e coloquial, prosaico e tributável, criada a partir de suas peças de circunstância, Drummond foi um artista sério, dedicado a uma arte séria. O poeta alçou seu olhar em múltiplas direções, do soneto ao poema experimental, praticando peças de arquitetura severa e construtiva, como os versos admiráveis de Áporo, um dos momentos mais altos de A Rosa do Povo (...). O impacto das imagens imprevistas, da música concisa e atonal e da estranheza da construção metafórica, nessa peça que é quase uma adivinha ou paradoxo, recorda a fase madura de Murilo Mendes (Convergência, Siciliana, Tempo Espanhol) e o melhor João Cabral, evidenciando a perfeição formal do mestre, que não pode ser reduzido a leituras sociológicas ou existenciais, tão comuns na crítica universitária. (..) Todo o esforço de amortecer ou ocultar a veia crítico-criativa de Drummond, transmutado em ícone de uma poética oficial e canônica, desmorona frente aos poemas de maior inquietação do autor, espalhados como pontos luminosos em seu cancioneiro, desde Alguma Poesia (1930), seu vôo inaugural. (...) O testamento literário do poeta, sua profissão de fé, que vale toda uma poética, pela extrema lucidez de conceitos, encontramos em A Rosa do Povo, no poema intitulado Procura da Poesia: "Não faças versos sobre acontecimentos. (...) O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. (...) O canto não é a natureza / nem os homens em sociedade. / Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. / A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. (...) Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos". Numa época em que a reação conservadora contra a poesia experimental busca em Drummond um modelo de dicção fácil e conformista, é tarefa urgente o resgate da irreverência, da invenção e da rebeldia verbal deste poeta que ousou ir além de si próprio, construindo uma das obras mais densas e originais de nossa literatura.
(http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/drummond.htm)
Escrito por Claudio Daniel às 17h10
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MAIS KHLÉBNIKOV

O ÚNICO LIVRO
Vi que os negros Vedas, o Evangelho e o Alcorão, mais os livros dos mongóis em suas tábuas de seda - como as mulheres calmucas todas as manhãs - ergueram juntos uma pira de poeira da estepe e odoroso estrume seco e sobre ela pousaram. Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo, apressavam o advento do livro único, cujas páginas maiores que o mar tremem como asas de borboletas safira, e há um marcador de seda no ponto onde o leitor parou os olhos. Os grandes rios com sua torrente azul: - o Volga, onde á noite celebram Rázin; - o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol; - o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano; - e tu, Mississípi, onde os ianques trajam calças de céu estrelado, enrolando as pernas nas estrelas;
(CONTINUA)
Escrito por Claudio Daniel às 13h02
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- e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência; - e o Danúbio, onde em branco homens brancos de camisa branca pairam sobre a água; - e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota; - e o fogoso Obi, onde espancam o deus e o voltam de olhos para a parede quando comem iguarias gordurosas; - e o Tâmisa, no seu tédio cinza. O gênero humano é o leitor do livro. Na capa, o timbre do artífice - meu nome, em caracteres azuis. Porém tu lês levianamente; presta mais atenção: és por demais aéreo, nada levas a sério. Logo estarás lendo com fluência - lições de uma lei divina - estas cadeias de montanhas, estes mares imensos, este livro único, em cujas folhas salta a baleia quando a águia dobrando a página no canto desce sobre as ondas, mamas do mar, e repousa no leito do falcão marinho.
1920
(Tradução: Haroldo de Campos)
Escrito por Claudio Daniel às 13h01
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O poeta russo Velimir Khlébnikov
(1885 - 1922)
A ENCANTAÇÃO PELO RISO
Ride, ridentes! Derride, derridentes! Risonhai aos risos, rimente risandai! Derride sorrimente! Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores! Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! Sorrisonhos, risonhos, Sorride, ridiculai, risando, risantes, Hilariando, riando, Ride, ridentes! Derride, derridentes!
1910
Quando morrem, os cavalos - respiram, Quando morrem, as ervas - secam, Quando morrem, os sóis - se apagam, Quando morrem, os homens - cantam.
1913
(Traduções: Haroldo de Campos)
Escrito por Claudio Daniel às 17h39
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A poeta russa Anna Akhmátova (1889-1966), retratada
por Nathan Altman.
DÍSTICO
Que outros me louvem — teu louvor é cinzas.
Que me reproves — teu rancor, alvíssaras.
LENDO HAMLET
O cemitério. Inflete um rio anil
À direita, no vazio do terreno.
Tu me disseste:
“Vai para um convento!
Ou se queres desposa um imbecil...”
Estas coisas só um príncipe diz,
Discurso que se grava na memória
Por séculos a fio e que desliza
Manto de zibelina pelas costas.
(Poemas de Ana Akhmátova, traduzidos por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, em Poesia Russa Moderna.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h40
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MARINA, LA FEMME FATALE

Marina Tsvietáieva (1892-1941) foi uma das vozes mais intensas da poesia russa do século XX. Ela viveu numa época regida pela violência e pelo tumulto, com eventos como a Revolução de Outubro e a II Guerra Mundial. Em versos ásperos, concisos, fragmentários, retratou cenas urbanas, fatos políticos, mas é na lírica amorosa que obteve seus melhores resultados, como no poema Ensaio de Ciúme, (ver abaixo) traduzido por Décio Pignatari, que integra o volume Marina, primeira antologia da autora lançada no Brasil, publicada pela Travessa dos Editores. Marina, diga-se, foi a femme fatale de sua geração, tendo inúmeros amantes, homens e mulheres, entre eles os escritores Óssip Mandelstam e Boris Pasternak. A poeta viveu intensamente suas paixões, com uma liberdade erótica rara em seu tempo. Personalidade inquieta, exilou-se em 1922, após a vitória dos comunistas sobre o Exército Branco, vivendo em cidades como Berlim, Praga e Paris. A experiência no estrangeiro, porém, foi dolorosa, e a poeta retornou à Rússia em 1940, onde passou por novas situações traumáticas. Seu marido, que pertencera ao serviço secreto, foi fuzilado, e a filha internada em um campo de concentração. A última cena desta vida trágica ocorreu em 1941, quando Marina, repetindo o gesto desesperado de Issiênin, de Maiakovski e da poeta norte-americana Sylvia Plath, comete suicídio, aos 49 anos de idade. Confiram agora um poema de Marina, na tradução cintilante de Décio Pignatari:
Escrito por Claudio Daniel às 08h12
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ENSAIO DE CIÚME
Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!).
Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
(CONTINUA)
Escrito por Claudio Daniel às 08h11
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“Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!.” Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... e a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
(CONTINUA)
Escrito por Claudio Daniel às 08h11
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Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver com uma boneca de gesso
— de feira!? Você me acha cara?
Depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que eu escavei de um bloco
só me deixou os ocos.) Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória,
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim... você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
Escrito por Claudio Daniel às 08h10
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Tela de Anasor ed Searom.
MINHA AGENDA
Comparsas, na próxima quarta-feira, dia 16 de novembro, a partir das 19h, será lançada a nova edição das Obras Completas de Lautréamont, na Livraria Cultura, localizada na Avenida Paulista, 2073. O livro, publicado pela Iluminuras, tem tradução e ensaio crítico de Claudio Willer. E no sábado, dia 19, a partir das 19h, estarei lendo poemas no Sarau Poesia Libre, evento que faz parte da programação da Primavera dos Livros, na Oca do Parque do Ibirapuera. Estarão presentes no recital poetas como Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Contador Borges, Joca Reiners Terron e Luiz Roberto Guedes, entre outros, compareçam! Que mais? No dia 22, terça-feira, a partir das 20h, o poeta Fabiano Calixto será o entrevistado no ciclo Rompendo o Silêncio, promovido pela Casa das Rosas, situada na Avenida Paulista, n. 37. Para quem não sabe, o Fabiano (autor de Fábrica, 2001, e que prepara novo livro, Música Possível, a sair na coleção Ás de Colete) é um dos mais interessantes autores da safra recente. Para concluir, no dia 10 de dezembro, a partir das 17h, o entrevistado será Frederico Barbosa, que além de ótimo poeta é o incansável agitador cultural que todos conhecem. Haja poesia!
P.S.: Viram a capa da Istoé, "Diário de um Padre Pedófilo"? Hum... é a Pele de Lontra fazendo escola... meus royalties, por favor...
Escrito por Claudio Daniel às 08h31
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