Cantar a Pele de Lontra


 

(Béatrice Dalle, no cartaz do filme Betty Blue)



Escrito por Claudio Daniel às 10h30
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BETTY BLUE (CINCO CENAS)

 

I

 

Piano, tarântula;

punho ferido

e o globo ocular

pelo desmanche

da memória.

 

 

II

 

(Ofélia descentrada,

banha-se em prata

de céu abortado.)

 

 

III

 

Paraíso clorofórmio:

inscrever o exílio

dos lábios na pele,

metalizada e muda.

 

 

IV

 

(Flashback)

 

Nereida meretriz

na gravata epitáfio;

tufos de barba

da morta madre,

como um presságio.

 

 

V

 

(Finale):

 

Ele travestiu-se

para a foice de Perséfone,

após domar a dor.

Repousa agora

o olho único da inquieta.

 

(Poema inédito de Claudio Daniel, 2005)



Escrito por Claudio Daniel às 16h18
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O poeta cubano José Kozer

 

 

 

O MENDICANTE

 

E gritava, sou feliz, não tenho nada, uma tanga cobre

minha nudez

já está aqui a escudela de arroz cozido,

     logo irei pedir um pouco de molho de

soja, talvez uma fruta, qual (dentre todas),

pediria talvez uns cobres; sou feliz sob

a figueira de Bengala, fico sob sua sombra,

na intempérie fico, de cócoras, sombras

de uma centenária ceiba, sombras do zebu que

aí vem se saciar, na postura de lótus

me sento, sombras de um pomar cheio de

árvores frutíferas, sombras de um vocabulário:

não caibo em mim de contente, mastigo sombras

e me choco contra um rio, duas estreitas

ribeiras o meandro de minha sombra; um gongo

golpeiam na desembocadura, acorro (não era

a fonte no alto das águas?), me humilho

ante o Soberano, eu sou sua sombra, alço a

vista pela terceira vênia, ouço minha voz gritar,

sou feliz sou feliz não tenho nada: e me sento

sobre o trono de palissandra, visto minha

nudez com a túnica açafrão de seda,

 

(CONTINUA)



Escrito por Claudio Daniel às 09h07
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sinto a canela sinto de ilhota em ilhota as

águas aromáticas do desjejum, com seu ponto de

mel silvestre, seca flor de jasmim: chegam

em fileira com barbas de três dias, eu sou

lampinho; se prostram e ouço a série de

reencarnações: já acabei, jalde feliz, trama

revés esfolamento, jalde flor que desponta nos

alvéolos: flor de tutano, braçada florida

de reses, ruminante respiração seus

ramalhetes enchem os púcaros de estanho

nas abóbadas do salão: flor imperial os

salões; outro aposento e outro, cortinas

escarlate de veludo, o leito matrimonial

sobre o estrado: tarimba e tálamo, a meus pés

colocam a Lampinha, meu alento rarefeito

roça suas faces, farejo no odor de sua

cútis:  onde estamos? Frutais estatuetas,

caudal; estojos e arquitraves, caudais:

resvala pela pura farinha do ar a espiga a

uma configuração de pães, tortas de azeite;

 

 

(CONTINUA)



Escrito por Claudio Daniel às 09h06
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e as águas resvalam (rosa) (erva-doce)

(camomila) à redondez sem asas  de um

jarro: uma xícara me queima as mãos, ouço

verter, vejo minha cicatriz, ouço crepitar

a queimação em minhas impressões digitais. Aperto

as polpas dos dedos contra as coxas,

estou tatuado: e em sua contemplação vejo cair

tição sobre minhas coxas, inquieta desembocadura

do ar dos arrozais. A este sinto, aí

sinto; entre minhas pernas, o receptáculo,

revestimento de reses: e grito, sou feliz sou

feliz não tenho nada, em minha própria rapinagem me

atropelo, trunco a gama, entre minhas pernas

recolho a escudela de minhas mãos, ouço verter,

verter a mosca sua fuligem, a ninfa seus

parasitas desígnios de transformação, ouço

cessar minhas evoluções: e calo ave, calo

rama e flor de seu bico, ia estender outra

vez a mão, abrir a boca, ouvir os

encadeamentos abreviados de minha voz, e me

subtraí, flor de lótus sob uma árvore abri

a branca sombrinha hexagonal de seda, tiara,

orlas insonoras do vento.

 

 

(Poema de José Kozer, traduzido por Claudio Daniel)



Escrito por Claudio Daniel às 09h06
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León Félix Batista

 

 

bocas tensas

entre redes de sargaços,
os torsos como lâminas

do muro antigo granizo

estrutura cavernosa

vibrando-me nas glândulas
formando-se em ilhotas de anarquia

ao toque cáustico
meu crânio é cripta;
os órgãos são tímbales
que desejam estalar,

abrir um agulheiro diafragmático

lascas da carne

vazias de sentido,
presente revogado de refluxos:
neles se enxertou
suturas de sentido

seguindo coordenadas subconscientes



Escrito por Claudio Daniel às 08h23
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bocas tensas

entre redes de sargazos,

los torsos como láminas

del muro antiguo piedra

 

estructura cavernosa

vibrándome en las glándulas

formándose en islotes de anarquía

 

al roce cáustico

mi cráneo es cripta;

los órganos son témpanos

que intentan estallar,

abrir un agujero diafragmático

 

esquirlas de la carne

vacantes de sentido,

presente revocado de reflujos:

en ellos se ha injertado

suturas de sentido

siguiendo coordenadas subconscientes

 

 

(Poema de León Félix Batista, traduzido por Adriana Zapparoli)

 

 

 

EM TEMPO: O Movimento Literatura Urgente foi convidado por Galeno Amorim, do Ministério da Cultura, a integrar a Câmara Setorial do Livro, Leitura e Literatura. Para saber mais a respeito, acesse os blogues de Ademir Assunção, Ricardo Aleixo e Marcelino Freire (estão na lista aí ao lado). Não foi dessa vez que Jerônimo, o Bandoleiro do Sertão, conseguiu estragar a nossa festa...



Escrito por Claudio Daniel às 08h23
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TRÊS POEMAS DE LEÓN FÉLIX BATISTA

 

 

León é um dos nomes mais interessantes da nova poesia latino-americana. Publiquei algumas traduções dele em Prosa do que Está na Esfera, livro que organizei com Fabiano Calixto, publicado em 2003 pela Olavobrás, e também na antologia Jardim de Camaleões. Saiu uma boa entrevista com ele no segundo número da revista literária Gazua, editada  em Fortaleza. Leiam abaixo alguns poemas deste autor da República Dominicana, traduzidos por Adriana Zapparoli.



Escrito por Claudio Daniel às 08h32
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espirais agilíssimas
sob bruma de aquarela

o mar é puro breu

que oclui as guelras

 

eu respiro com a asfixia

da metade do Tao:

 

com a boca eu busquei sua veia cava

 

 

espirales agilísimas

bajo bruma de acuarela

 

el mar es pura brea

que ocluye las agallas

 

yo respiro con la asfixia

de la mitad del Tao:

 

con la boca yo busqué su vena cava 



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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vocábulo venéreo
contra o alcantilado


outra nudez a que cedi meus genitais

percebo o mar de lava

que rompe seus pigmentos

aberto a um porvir
de leito salitroso

os lábios, como símile
suturas que laceram
o desnudo marinheiro
do mar na garganta

 

vocábulo venéreo

contra el acantilado

 

otro nudo al que cedí mis genitales

 

percibo el mar de lava

que rompe sus pigmentos

abierto a un porvenir

de lecho salitroso

 

los labios, como símil,

suturas que laceran

el nudo marinero

del mar en la garganta 



Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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o sexo apenas mar,
movimento com almêijoas:

acidente derramando parlamentos


em jornadas de bandido,

de nível e desnível

imperfeita a rapina de espessuras

assim purificado
mas cartilaginoso


cimentado nos preceitos de Mercúrio

 

el sexo apenas mar,

movimiento con almejas:

accidente derramando parlamentos

 

en jornadas de bandido,

de nivel y desnivel,

imperfecta la rapiña de espesuras

 

así purificado

pero cartilaginoso

 

cimentado en los preceptos de Mercúrio

 

 

(Traduções: Adriana Zapparoli) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h29
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NEL MEZZO DEL CAMIN

 

Caros, hoje faço 43 anos. Estou ficando velho. Nunca curti fazer muitos planos para o futuro ou coisas assim. Gosto de rotas imprevistas. De acontecimentos súbitos que mudam nossa vida, sem aviso prévio. Porém, não resisti à tentação de fazer uma pequena lista para as próximas décadas. Confiram:

 

 

1) Publicar mais cinco ou seis livros de poesia.

 

2) Estar sempre disposto a renovar o pensamento.

 

3) Ser amigo de meus amigos, tolerante com os desafetos e cordial com os demais.

 

4) Desconfiar de minhas próprias conquistas; há sempre alguma coisa a aprender com Homero, Li Tai Po ou Khlébnikov.

 

5) Não me apegar à minha própria obra; incentivar o trabalho dos novos, pois sem eles a literatura fica estagnada.

 

6) Praticar mais Tai Chi Chuan e aprender a técnica da espada.

 

7) Ouvir O Anel dos Niebelungos, de Richard Wagner, no Festival de Bayreuth.

 

8) Ler os livros que ainda não li, como Ana Karenina e Guerra e Paz.

 

9) Assistir à Queda do Império Americano.

 

10) Morrer aos 75 anos num desastre aéreo sobre o mar Cáspio.



Escrito por Claudio Daniel às 08h10
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MEMÓRIAS DE UM AMNÉSICO, PARTE TRÊS

 

Minha formação literária foi marcada pela leitura de Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont; com eles, aprendi o gosto pela sinestesia, pela alquimia verbal, pelo inusitado das imagens. Depois, li João Cabral e a Poesia Concreta, que me ensinaram a pensar na construção do poema, de um modo disciplinado. Acredito que meus primeiros poemas aceitáveis nasceram deste casamento entre o céu e o inferno, o deleite sensorial e o artesanato rigoroso. Não acredito numa poesia puramente intuitiva, e não ambiciono uma arquitetura impessoal. Gosto de colocar ordem em minha desordem: alucino-me com método. A leitura posterior dos neobarrocos abriu outras portas para mim. Comecei a estudar e traduzir poetas como o cubano José Kozer, os uruguaios Eduardo Milán e Victor Sosa, o peruano Reynaldo Jiménez, e sem dúvida há reflexos da pérola irregular em meus escritos. O que me fascina no barroco moderno é a síntese que opera entre diferentes repertórios culturais e lingüísticos, desprezando limitações da história e da geografia, fazendo da agoridade um momento de encontro de culturas.

 

Porém, nunca quis ser um poeta barroco (assim como não sou concreto ou pós-simbolista). Tenho a ilusão insensata de criar uma voz pessoal a partir de leituras díspares, até contraditórias, sem me restringir a esse ou aquele discurso. Por outro lado, não gosto de me fixar num único ponto. Quando conquisto uma forma, ela perde logo todo o interesse, e saio em busca de outra forma. Este é o meu código de honra, o meu bushidô: não repetir o que já fiz (nesse caso, é preferível ficar em silêncio), mas tentar outras aventuras possíveis.



Escrito por Claudio Daniel às 08h09
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