Cantar a Pele de Lontra



A poesia é um exercício de vampirismo.





DIÁRIO DE UM VIAJANTE



Comparsas, irei a Curitiba neste final de semana, para discutir vários projetos literários interessantes. Em 2006, teremos boas surpresas, aguardem! Aliás, recebi o n. 6 da revista Et Cetera, que ficou uma beleza! Tem poemas da Adriana Zapparoli (com ilustrações da artista plástica Heliana Grudzien), de Horácio Costa, Franklin Alves, traduções de Marina Tsvetáieva, Lorine Niedecker, Henry Deluy e do chileno Armando Roa Vial (este último, traduzido por mim), entre outros petiscos.



Outra coisa: o poeta uruguaio Eduardo Milán dará uma palestra na próxima segunda-feira, dia 31, às 10h, sobre o tema “Estado atual da poesia latino-americana”, na sala 14 do prédio de Ciências Sociais da FFLCH, na USP. Imperdível. Milán é um dos principais poetas atuais de língua espanhola. Há uma entrevista que fiz com ele numa das edições da Zunái, além de ensaios e poemas do autor.





Escrito por Claudio Daniel às 08h39
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Adriana Zapparoli, a Oxum da nova poesia.

 

 

A HIDRA DE LERNA

 

a poliandra da índia escala o leopardo rubi. parada.

a escada feminina de amor na pétala dum copo de leite.

o encanto. o celacanto do ar  sobrenada lábio

de fundo fácil. um fóssil envolto pelos brincos de argolas

de ouro de algas eróticas. flegma poliandra.

inexata. falo ouriço eletrificado e plânctons libidinosos.

sobre o mar revolto os cabelos de mola do mundo. 

roda a hidra de lerna. seu hálito de maçã sobre as águas

tesas da manhã.

retesam.

 

(Confiram o caderno de poemas da Adriana publicado

no n. 6 da revista Et Cetera.)



Escrito por Claudio Daniel às 13h41
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OS CADERNOS DE MADAME ZAPP

 

 

 

ELANDE

 

segue o deus antílope, no azul  da sombra  dançante de  seu pensamento íngreme. sua curva, sua pedra, sua pata, sua perna, pelas ruas da cidade nua, a mirar o infinito de uma solidão tarântula e totalmente noturna. na esquina da mente habita a prostituta savana e sua glândula fiandeira de líquida seda. urticante, vaga entre os sinais de trânsito, entre os carros ágeis, que passam disparando o medo e o desejo em ser diferente. são aguilhões ocos de corpos metálicos e receios. a procura. ele, uma criatura tímida, quase um pavão no deserto. o encontro.

 

 

A MÃE MORTA CHORA. SOLITÁRIA A ALMA EM CONSTRUÇÃO FEMININA

 

flor-pêra um nectário em barro manteiga

 

de ninho revolvido o pólen untado pelo óleo

miniatura de areia agregada nargila telha

 

néctar de madeira amêndoa em orgia rasteira

sua célula pseudo-amarela

 

escamosa sobrevoa bélica

configura abelha muda sua asa membranosa

 

a dor: apitoxina em ferrão-ranhura

tão bela cleptoparasita presa no calor da estufa

 

 

(Poemas de Adriana Zapparoli. Essa moça vai surpreender,

em breve. Aguardem.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h28
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Horácio Costa, autor do livro Fracta (ed. Perspectiva).

 

 

EM TEMPO

 

Bien, estarei hoje, às 19h, na Casa das Rosas, para um recital e debate, juntamente com  Horácio Costa, Contador Borges e Virna Teixeira. O evento faz parte do Corredor Literário, que envolve uma série de atividades com escritores na região da Paulista. Como resposta bem-humorada a esse programa, os meninos da USP (os mesmos que inventaram a FLAP) bolaram a Récita da Vaca, que acontecerá no dia 29, sábado, às 15h,  no vão do MASP (local já consagrado por aqueles chatos que param você na calçada para as clássicas perguntas: “Você gosta de poesia?”, ou ainda “Você gosta de teatro?”). Claro que, dessa vez, vale a pena parar e ouvir o que os meninos têm a dizer. Mais informações no site http://recitadavaca.zip.net.



Escrito por Claudio Daniel às 15h51
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O mercado, de Marc Chagall.

 

 

O ESPELHO E AS COISAS

 

 

I

Olho-de-virgo, barriga-de-peixe, dentes-de-leão: palavras são reflexos. Habitei no espelho e comi serragem, vidro moído, trapos de jornal; e copulei com relógios, navalhas, fechaduras. Sobre a mesa da sala, entre vogais dispersas do alfabeto, estilhaços de ampolas para abolir a idéia do tempo. Vermes saem pelo buraco da agulha. A palavra jade é pus, a palavra jalde é cuspe; a palavra janga está nua, vestida de alarme. Maçãs enlouquecem. Verde enfurece conchas, lesmas pensam na árvore da palavra despida que sonha.

 

 

II

 

Tudo são nomes e formas. Lâminas cortam os fios desatados de água estagnada. Há uma praça onde comprei pêras ou figos, não sei. Onde ouvi a menina dizer eibishuá. A lua pisca um olho para a jovem parca, ela é cega e surda, e come entulho no banco da praça. Sua voz arisca, bruta, tantaliza: fio de arame tenso, buraco de agulha, cano de pistola. Tudo são palavras, e palavras são coisas. Que não permanecem. Tudo queima, e o sol vegetal é a urina de um cão que arde em vermelho.

 

III

 

Tudo são simulacros, pegadas no limo do nada. Todavia, o velho coxo sangrado disputa comida com o cão. A poesia pode andar de bicicleta, deslancha no mar azul, onda em castelhano se diz ola, nuvem em francês se diz nuage. Ela pode ser escrita em pele viva, em algodão, no suor do Marrocos, no violoncelo de São Petersburgo, numa bodega de La Habana. Porém, a tesoura corta tudo em pedaços. Permanece uma sombra, um eco de ruidoso silêncio. Que o espelho captura e multiplica em um número incalculável de reflexos.

 

 

(Poema de Claudio Daniel. A Sombra do Leopardo, Azougue Editorial, 2001.)



Escrito por Claudio Daniel às 08h17
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Objeto rítmico n. 1, de Maurício Nogueira Lima.

 

 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

 

Extra, extra! Acabou de sair da gráfica a sexta edição da revista Et Cetera, editada em Curitiba pela Travessa dos Editores. Assim que receber os meus exemplares, farei divulgação decente aqui. E já está on line a revista virtual Escritoras Suicidas, “um site para mulheres e homens que fingem de”, com poemas e contos de Silvana Guimarães, Mariza Lourenço, Marília Kubota e Eliana Pougy, entre outras meninas arteiras, confiram na página http://www.escritorassuicidas.com.br. 



Escrito por Claudio Daniel às 16h52
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Minha ninja favorita, pronta para atacar.

 

 

OFICINA DE TRADUÇÃO DE POESIA

 

Camaradas, uma boa notícia: o poeta, músico, tradutor, estudioso de grego, escultor em metal e escafandrista Marcelo Tápia estará dirigindo o Módulo I da Oficina de Tradução de Poesia, que acontecerá em seis encontros semanais, na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. A oficina visa fornecer aos participantes subsídios para a tradução de poemas e para a reflexão acerca dos procedimentos envolvidos nessa atividade. Para isso, serão discutidos aspectos da linguagem poética e fundamentos de teoria da tradução, além de exercícios tradutórios. O Marcelo já colaborou na Zunái com traduções de Nicolas Guillén e de poetas irlandeses contemporâneos; é um cara culto e entende muito do riscado, além de bom sujeito e ótima conversa. Confiram os dias e horários abaixo:

 

Sábados: 06, 12, 19 e 26 de novembro, 03 e 10 de dezembro, das 10 às 12h.

Vagas: 50

Taxa: R$10,00 



Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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 Parem, eu confesso! Sou fã de Elektra Natchios!

 

 

DIÁRIO DE UM REPLICANTE

 

Mujahedins, anotem em suas agendas: na próxima quarta-feira, dia 26 de outubro,  a partir das 19h, eu estarei na Casa das Rosas, participando de um recital poético e debate, junto com Horácio Costa, Virna Teixeira e Contador Borges. Quem puder, apareça, será divertido! Preciso dizer o endereço de novo, preciso? Vai lá: Avenida Paulista, 37, tel. (11) 3285-6986, pertinho da estação de metrô Brigadeiro. Aguardo vocês lá! Outra coisa: o Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC/SP e a Área de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa da USP estão realizando o Simpósio Internacional Pessoa & Drummond, de 24 a 27 de outubro. Estarão presentes feras como João Alexandre Barbosa, Leyla-Perrone Moisés e Maria Esther Maciel. Para mais informações, confiram o site http://www.fflch.usp.br/eventos/pessoaedrummond/

 

Allah uh akhbar,

 

Mustafá Daniel



Escrito por Claudio Daniel às 08h22
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