Cantar a Pele de Lontra


A NÚBIA MONTAVA UM BISONTE

 

A NÚBIA MONTAVA UM BISONTE DE OITO PATAS.  Segurava na mão esquerda um espelho e na direita um azorrague. A esguia sombra da deusa ou monstro ou fera simulava uma serpente. Seus tornozelos tinham adornos de ossos ou marfim e seu corpo nu era tatuado com figuras de círculos concêntricos. Uma vasta cabeleira  leonina dava-lhe  um  aspecto ameaçador, acentuado por seus grandes  olhos sem pálpebras  e por um fino bigode de gato. Senti um terror  vago e confuso  quando sua imagem  ficou refletida em minhas águas; quis gritar, mas não pude. Logo a noite trará de volta o silêncio e a escuridão e eu, o Nilo, poderei exercer novamente esse sublime ofício do esquecimento.



Escrito por Claudio Daniel às 08h39
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ONTEM CHOVEU NO FUTURO

 

“Em Campo Grande, em Nova York, em Assunção, em Florianópolis, Em Ponta Porá, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no cu do mundo ou em nenhuma parte, o termo ‘poesia’ pode e deve ser entendido mais amplamente, além do meramente ‘literário’, já que a poesia existe em todas as expressões artísticas (dança, teatro, artes visuais, escultura, cinema) e até em outros gêneros literários como a narrativa (romance, nouvelle, mito, lenda, conto), nos quais também se encontra muita poesia. (...) “Por isso, optamos por um método de trabalho diferente, FAZER CHOVER ONTEM NO FUTURO ou algo por el estilo...”

 

 

(Trecho do editorial da revista Ontem Choveu no Futuro, editada pelo poeta selvaje Douglas Diegues. E-mail para contato: ontemchoveunofuturo@yahoo.com.br).



Escrito por Claudio Daniel às 08h32
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“Claro que teremos fascismo na América, mas nós o chamaremos de democracia.”

 

 — Huey Long, governador da Lousiana, 1935.

 

  

 

CARTA DE MIA COUTO AO FUHRER

GEORGE BUSH

 

Senhor presidente: sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria... Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de freedom fighters por estrategas norte-americanos. Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, caro presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva

 

 

(Leiam a íntegra da carta do escritor moçambicano Mia Couto em http://www.secrel.com.br/jpoesia/mia.html#carta.) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h35
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(O céu que nos protege, de Bertolucci. Filmaço!)

 

 

KIT E PORT

 

Eles fazem amor na beira do abismo.

A areia, o cascalho tisnam, esfolam,

rasgam o vestido e a pele, o cinto

aninhou-se em serpente inerte

ao lado do paletó amarfanhado,

o brinco rolou encosta abaixo,

as palmas das mãos lanharam e

passeiam sua aspereza pelo rosto,

cobrem de poeira o seio trêmulo,

exposto.

A cúpula a concha indecisa

que acima dos corpos se fecha

nada guarda: pálpebra dormente,

anestesiada sob o entardecer,

que fosforesce.

No momento em que a penetra

(apenas o zíper aberto)

centrípeto em seu ímpeto, ele fala.

Repete, enquanto arremete

o corpo contra o dela,

lanha arranha esfola ergue

sua tenda de palavras

sob o céu que não protege.

 

(Poema de Claudia Roquette-Pinto, de Margem de Manobra. Ficou curioso? Quer ler mais? Compre o livro, oras, bolas!) 



Escrito por Claudio Daniel às 08h26
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CUIDADO, HÁ UM BÁRBARO À SOLTA NA CIDADE

 

 

Ademir  Assunção fará show de lançamento do CD Rebelião  na Zona Fantasma na próxima quinta-feira, dia 20 de outubro, no Sesc Pompéia. Ele estará acompanhado pelos músicos  Luiz  Waack (guitarra e violão), Daniel Szafran  (piano e vocais), Chulapa (baixo) e Leandro  Paccagnela (bateria). O show tem participação especial do cantor e compositor Edvaldo  Santana,  parceiro de Ademir em várias composições. O cenário virtual criado por  Robson  Timóteo,  com base nas linguagens de quadrinhos, cinema e animações computadorizadas,  acrescentam interessantes camadas de significados ao conjunto de poemas  embalados ao som de rock, jazz, blues e outros ritmos. 

 

 

Sesc Pompéia  (Teatro)

 

Rua  Clélia, 93 – Pompéia (fone: 3871-7700).

Ingressos:  Inteira – R$ 12,00; estudantes, R$ 6,00; comerciários, R$  4,00.



Escrito por Claudio Daniel às 08h41
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POETAS QUE NÃO BRINCAM DE BONECA

Fulla, a boneca muçulmana fabricada na Síria.

 

 

EM SARAJEVO

 

Na primeira foto ela ri,

selvagem,

e se mistura às amigas.

Um ano mais tarde,

posa com as mãos no colo,

coluna reta,

os pés cruzados pra trás.

Por dentro do uniforme pressente

uma mulher, a passos largos,

galgando as ruas de grandes cidades

— quem sabe do exterior.

Quando a vi, ali, distraída,

na escada do ônibus escolar,

nada me preparou para suas pernas abertas,

no meio a flor dilacerada

repetindo, entre as coxas,

o buraco de bala no peito:

um dois pontos insólito.

 

 

(Poema de Claudia Roquette-Pinto, extraído de Margem de Manobra, para mim, o melhor livro de poesia do ano.) 



Escrito por Claudio Daniel às 07h28
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